sábado, 29 de outubro de 2022

 

A Promessa
 

- Então, está prepara pra ouvir?

Foi assim que nossa conversa começou. O sotaque do Português distante do meu comprometia um pouco o entendimento. Foram necessárias pausas para repetir algumas falas. Na verdade, acredito que a grande dificuldade era o impacto que cada detalhe me causou. Era tão distante da minha realidade que sua história parecia ficção.

- Sim Olívia, foi desta forma que parei aqui!

- Mas por que você não conta essa história para o mundo?

- Porque temo pelo restante da minha família que ficou.

 

Joaquim era um jovem nascido numa família de curandeiros em Luanda. A comunidade a qual pertencia era bastante desprovida de bens materiais e sobreviviam de doações em troca de benzeções e conselhos sábios sobre ervas e chás. Segundo ele, muitos os confundiam com bruxos e inventavam histórias a respeito da comunidade e de seus familiares.

- Lá na minha terra eles são muito supersticiosos e qualquer coisa que aconteça a uma família as pessoas procuram os curandeiros para proteção. Se você tem um gato preto em casa, os vizinhos já começam a lhe vigiar. Aí se alguém perde o emprego ou alguém da família morre, já dizem que você fez feitiçaria. É muito sério isso e o governo fecha os olhos para essas brigas entre as pessoas por razões religiosas. E, na maioria das vezes, as discussões acabam em tragédia.

Pausa na nossa conversa. Já passava muito do meu horário de trabalho e precisava voltar pra casa. Queria continuar escutando, afinal eu não sabia quando ele iria voltar. Talvez no mês seguinte e com muita sorte eu conseguiria saber o final da história. Despedi-me dele.  Disse que estaria seguro agora e começaria logo uma vida nova. Queria lhe dar alguma esperança, logo falei da possibilidade de estudos e de trabalho. Vi que seus olhos brilharam um pouco mais. Deixei Joaquim ali junto aos assistentes, que deram continuidade ao seu atendimento. Meu trajeto até em casa foi feito de modo automático. A cabeça não parava de pensar naquelas histórias absurdas que Joaquim havia me revelado naquela tarde. Procurei logo na internet sobre bruxarias em Angola. Li sobre pesquisas acadêmicas e notícias de jornal. Uma das reportagens dizia que, por mês, dezenas de crianças eram abandonadas nas ruas de Luanda porque os pais diziam que eram amaldiçoadas. Existia realmente um grande problema social impulsionado pelo radicalismo de crenças. ONGs trabalhavam para diminuir o impacto do abandono, mas dependiam de políticas públicas eficientes. Olhar para outro país e julgar o que aquela sociedade compreende como verdade não é um exercício simples. Culturas completamente diferentes, outros contextos sociais. Aquilo me incomodou muito. No entanto, o abandono, a falta de amor, a discriminação, os direitos humanos violados, são motivos suficientes para o mundo se mexer. Para outros países interferirem e pressionarem os governos locais por providencias!

Duas semanas se passaram. Lá estava ele sentado me esperando chegar. Queria trocar umas palavrinhas comigo.

- Nossa que bom lhe ver Joaquim! Você está bonito e alegre!

- Estou mesmo Olívia! Consegui um trabalho voluntário. Assim vou esfriando minha cabeça, parando de pensar na minha vida anterior e tudo que vivi nesses últimos anos. Você viu minha blusa nova que linda?

- Adoro essa cor! Ficou muito bem em você!

- Com o auxílio do governo estou conseguindo me alimentar e comprar roupas em brechós. Nunca tive uma blusa como essa. Eu me lembro que quando era garoto ganhei um short de doação. Eu me senti a pessoa mais especial desse mundo. Fiquei numa alegria, mostrava pra todo mundo. “Olha só o que ganhei, olha como sou importante!”  Nunca tive roupas legais...

 Segurei o choro imaginando o menino descalço passando pelas ruas sem asfalto, gritando de alegria e chamando a atenção dos vizinhos para aquela novidade. Doeu meu coração. Afinal eu sempre tive tanta roupa, tantas oportunidades. Mundo desigual!

- Então, Olívia, hoje queria lhe contar o restante da história. Acho que um dia você vai poder escrever sobre isso. Quando te vi me pareceu tão sensível e inteligente. Com sua escrita, mesmo que tardiamente, talvez as pessoas possam olhar para Luanda e socorrer outras famílias, crianças inocentes.

- Vou tentar publicar Joaquim. As pessoas especulam muito, mas elas fazem muito pouco, na maioria das vezes. Por outro lado, quem sabe a minha história chega nos ouvidos de algum figurão da ONU?

Sorri meio sem graça. Não acreditava na minha força, nem no meu texto. Mas precisava consolar o coração do Joaquim de alguma forma. Na cabeça dele seu sentimento de impotência era tão grande que qualquer pessoa faria mais por sua família que ele.

- Pois é, Olívia. Sabe, minha mãe começou a sofrer de demência. No início se esquecia das coisas e depois da gente. Ela começou a ter sonambulismo e, por diversas vezes, meu pai a buscou no quintal, sozinha perambulando à noite. Era muito triste vê-la daquele jeito. Como éramos de uma família de curandeiros, muitos da vizinhança inventavam histórias sobre a gente. Um dia minha mãe saiu nua de casa e meu pai não viu logo. Isso gerou muitos comentários. Disseram que minha mãe estava voando numa vassoura. Assim nos perseguiram e mataram meus pais.

Uma pausa. Os olhos dele brilharam. Dessa vez eram as lágrimas de tristeza. Engoli seco. Queria gritar, dizer “que absurdo, que povo louco, que mentira”. Qualquer coisa que eu dissesse seria inútil. A tragédia já tinha acontecido, o coração do Joaquim já estava despedaçado, tudo aquilo que lhe dava alegria tinha sido destruído. Ele sabia muito mais que eu a respeito de impunidade. A única coisa que minha ignorância podia fazer era ouvir e prometer que escreveria sobre isso.

- E por que deixaram você escapar?

- Porque eu estava fora na hora e fugi. Pedi refúgio aqui, em outro país. No meu caso eles aceitam refugiados. Não volto mais, Olívia. Vou começar outra história aqui. Agora preciso ir. Talvez a gente não se encontre mais. Escreva viu?

- Vou escrever Joaquim. Boa sorte. Posso lhe dar um abraço? Brasileiro tem mania de abraço, me perdoe.

- Tudo bem! Obrigado por tudo.

Tudo? Até ontem não tinha feito nada sobre isso. Planejei buscar outras histórias, fazer um trabalho sobre isso, denunciar... O tempo passou. Mais de quatro anos. Cá estou escrevendo. Minha filha me chama lá fora agora.

- Mamãe venha me ajudar com esse dever. Está muito difícil hoje.

- Já vou Carolina!

- O que você está fazendo aí?

- Cumprindo uma promessa, Carol!

terça-feira, 12 de abril de 2022

Sobre o tempo das coisas


Uma árvore leva tempo pra ficar robusta, plena, de galhos e folhas. Feito qualquer ser vivo é gente com seu processo. Ora livres, com pés descalços pisoteando o chão.  Ora desejando ser árvore, parindo frutos, enraizando. 

Em qualquer caminho, pausa. Esperar com a calma de quem enrola o cigarro, acende, solta baforadas, pensa no dia. Depois olha pra cima, espreita a noite e conta estrelas. 

Paciência. Nada é certo, no entanto é preciso ir, mais que nunca. Respirar até o peito doer. Tomar café no coador de pano, compreender que a vida é um filtrar de reminiscências e de planos. A gente volta pra ir. 

É um querer e não querer. É preciso aguardar respostas, enfrentar o não e comemorar o sim. Esperar exige muita coragem.





terça-feira, 28 de abril de 2020



Bolo de Laranja pra Iaiá


O dia caminha lindo, o ar fresco e o céu azul. Olho para o calendário e vejo que é 28. Não é outubro, mas era dia de uma desculpa para lhe ver. Tomar café com as gostosuras que fazia para servir depois da missa de São Judas Tadeu, seu santo de devoção. A tarde passa. Continuo fazendo minhas coisas, mas permanece o desejo de voltar no tempo, de sentir os cheiros da sua cozinha, o calor do seu afago. Um suspiro e me levanto da cadeira. Começo minha homenagem. Ligo o forno, num calor médio, para assar bolos em geral. Parto uma laranja ao meio, depois reparto, tiro caroços e um pouco da casca. Mas deixo algumas. Jogo no copo do liquidificador, acrescento três ovos inteiros, meia xícara de óleo, mais uma de açúcar, bato tudo. Vou acrescentando a farinha de trigo aos poucos até o aparelho não conseguir mais bater. É o ponto. Misturo uma colher de sopa de fermento em pó manualmente. Unto a forma, despejo e espero 30 minutos. Enquanto assa preparo uma calda rala com quatro colheres de açúcar e duas laranjas espremidas. Vinte minutos o aroma invade a casa, sinto um abraço com cheirinho de laranja. Fica clara a sua presença. É preciso um café forte pra acompanhar. Quase posso ouvir a voz rouca perguntando se ficou bom, “come mais, coloca manteiga”. O bolo ainda quentinho, faço furos com o garfo, derramo a calda e peneiro um pouco de açúcar de confeiteiro. Lembro dos detalhes, pois assim há mais tempo de você ficar aqui, me espiando, conferindo se estou indo bem. O primeiro pedaço derrete na boca, um finalzinho bem adocicado, fecho os olhos rapidinho, é pra ninguém ver que estou rezando. Uma oração pra você, por nós.

sábado, 28 de maio de 2016

A mulher que queria brilhar







Era assim todos os dias. Luísa botava o lixo pra fora, arrumava o café da manhã, chamava os filhos, levava para a escola, ia para o trabalho, encontrava o marido, buscavam os filhos, arrumava a casa, fazia a janta, olhava o para casa dos filhos, botava os filhos pra dormir, assistia minutos de TV e ia pra cama. Era uma rotina, no entanto nas rotinas cabem felicidade, horas de alegria e satisfação pessoal. Nada disso era problema pra ela. Gostava daquela vida, do casamento dos filhos do marido da casa de tudo. Também se divertia no trabalho, tinha muitos amigos, muitos eventos. Isso era motivo de sair um pouco do feijão com arroz, tão natural e necessário. Mas tinha um segredo enorme que Luísa guardava à sete chaves. Ela queria brilhar. Era um negócio esquisito essa ideia que passava horas assombrando seus pensamentos. Como alguém que tinha tudo maravilhoso sentia um buraco , um vazio, um desejo louco de brilhar. Um dia começou a falar disso com uma amiga, a qual dividia suas intimidades. Daí foi logo interpelada. “Como assim Luísa, que loucura é essa? Tá querendo ser atriz, se apresentar em público. Isso é algo do seu ego. Você tem necessidade de aparecer de ser o centro das atenções. Cuida disso menina, pode avacalhar sua vida esse negócio todo”. Luísa se encolheu novamente e botou pra dentro a caixinha com o danado do querer. Sonhou com aquilo durante noites e noites. O sentimento foi crescendo, sem formato, apenas a vontade de explodir o que nem ela mesma sabia onde ficava o pavio pra acender. Uma espécie de Alien que comandava sua inteligência em momentos de descuido. Quando se distraia dos afazeres, do racional, lá vinha a coisa tomando conta de tudo. Mas ela conseguia guardar. Dobrava vagarosamente todas as partes do desejo e repetia como um mantra que aquilo tudo era pra depois. “Tenho que esperar a hora certa.” E Luísa vivia todos os seus dias dobrando, chuchando, enxotando a coisa pra dentro do quadradinho. Um dia, um daqueles com chuva e feriado sem nada pra fazer, Luísa começou a bater um papo com os filhos e um deles contou sobre uma ideia genial de fazer um concurso de redações pra “colocar os meninos preguiçosos da escola pra pensar”. Ela sentiu um orgulho danado do filho, tão novo e já se preocupando com projetos para um bem comum. Ela se sentou com eles e escreveram ali mesmo um projeto. Na segunda-feira o filho saiu contente da vida e entregou para a professora. O dia mal acabou e Luísa foi chamada as pressas na escola dos filhos. A diretora queria parabenizar o trabalho e dar início ao projeto com a ajuda dela. Voltou pra casa cheia de alegria e não se preocupou em dobrar os fios soltos do brilho. E no caminho de volta pra casa ia falando com os filhos e só aumentava a vontade de que tudo aquilo desse certo . E lá se iam mais fios do brilho desenrolando. Chegou em casa pronta pra contar tudo ao marido e se reprogramar para que aquela atividade participasse da sua vida. Mas antes de abrir a boca o marido lhe deu a triste notícia de sua demissão. De uma hora pra outra a empresa resolveu cortar gastos e ele como um funcionário antigo era um custo alto naquele momento. Luísa reuniu todas as forças para consolá-lo e se reorganizarem com os gastos até que ele encontrasse um novo trabalho. Usou todas as energias para levantar a autoestima do companheiro e não deixar que os ânimos ali desmoronassem. Dobrou o brilho naquele momento, guardou tudo de novo. Chamou os filhos e teve uma longa conversa sobre gastos, vida apertada e trabalho em equipe. Sobre o projeto. Ah seria complicado pensar naquilo agora. Passaria as diretrizes para a escola e tudo seria lindo. Mas agora era hora de esperar as coisas voltarem ao normal...  

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Sobre quem se vai antes de ir

Há dias em que me bate uma saudade de pessoas que ainda estão aqui, mas já não são as mesmas de antes. Cheio de significados isso que disse? Então melhor explicar com exemplos. Sinto uma falta das crianças as quais me apeguei quando bebês ou bem pequenas. Elas cresceram. Hoje são homens e mulheres que amo muito também, mas aquelas crianças se foram. É estranho porque estão vivas, cheias de histórias, pessoas incríveis, mas as vezes queria brincar mais uma vez com aquelas crianças. Sei que se transformaram,se foram aos poucos e, na maioria das vezes, trouxeram pouca coisa da infância. Certo que ganharam outras tantas características que encantam a gente também. Mas a criança, aquela criança...

Foto: Henrique Rocha
Um sentimento parecido é o que acontece em relação a minha avó. Chega a dar um nó na garganta quando vem o pensamento de que Ela está indo aos poucos. Está viva, cheia de saúde, mas Ela mesma não está mais ali pra discordar das minhas petulâncias, pra brigar por pouco, pra cuidar da gente com seus carinhos vindos da cozinha. E quando quero reviver nossos momentos juntas passo um café, faço um pão, ouço uma música. Pois Ela permanece no cheiro do café, do pão de queijo no forno e do pão com coco. Ah que pão! Saudade do bom dia com tantas perguntas e dos casos de família. Dos telefonemas durante a semana cobrando minha presença, disputando minha atenção.Certo que minha vó, assim como as crianças, ganhou outros atributos.

Então fico aqui matutando, meio saudosa meio feliz. As pessoas se vão aos poucos, mesmo antes de ir.Estamos indo, seguindo intuições, fazendo escolhas e talvez um tanto ou um pouco da gente vai ficando no caminho. Alguma coisa da gente deve estar grudado nas paredes de uma casa, no livro que alguém escreveu, na carta que alguém guardou, na marca de batom em algum copo. A vida é mesmo um ir e vir. Vamos perdendo, acabando. Mas também ganhando. Só mesmo a saudade, essa palavra difícil de traduzir para outros idiomas, é que acumula. Se enche com as lembranças de crianças, de adolescentes, de adultos e de velhos que amamos.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Um caminho

Era um dia como outro qualquer. Ana Maria seguia seu caminho de sempre. Por não encontrar novidades, quis arriscar um atalho. E foi então que naquele momento tudo se transformou. Ela experimentou algo que lhe fez mudar suas expectativas em relação à vida. Que por sinal andava muito parada. Sem grandes entusiasmos. Nem amigos nem namorado nem propostas de trabalho. Foi então que naquele beco sujo e fedorento ela teve a primeira das sensações. Sentiu um cheiro de mijo antigo, que lhe deu vontade de botar pra fora todo seu café da manhã. O odor queimava suas narinas e ela mal podia prestar atenção às pessoas que passavam ao seu redor. Estava ligeiramente tonta. Tentou se apoiar na parede. E ia desistir daquele caminho quando bateu uma leve brisa que lhe trouxe um cheiro de sonho dourado. Do bolinho mesmo. Com recheio de doce de leite e casquinha crocante. Aquilo a fez pensar o quanto o mundo era mais feliz por causa dos livros de receita. Ah como daria tudo para ter o antigo caderno de receitas da sua mãe. Perdera em algum lugar da casa, do passado, das paredes descascadas. Ela já não se recordava das medidas para tornar um sonho em realidade. Achou melhor caminhar ao invés de pensar naquilo. Inesperadamente o céu escureceu. Não havia previsão de chuva, mas tudo ficou bastante fechado. Pensou que não era seu dia de sorte, pois não havia levado guarda chuva. Sua roupa era clara, o que lhe deixaria muito constrangida se molhasse. Pensou em voltar à casa. Mas quem sabe poderia esconder-se debaixo de alguma marquise e aguardar a tempestade. Acatou a ideia e se protegeu. Depois de um tempo ali, esperando tudo acalmar, notou uma fisgada na barriga. Uma pontinha de dor causada pelo cheiro do feijão que vinha da cozinha próxima ao local onde estava. "Que diabo de restaurante! Precisam começar a refogar o alho e a estalar os feijões na gordura logo tão cedo!" Sua boca enchia de saliva e seus olhos quase podiam enxergar a cozinha da sua avó Dinda. Voltou ao tempo em que havia gente perto dela, que a casa era cheia de causos e de discussões acaloradas. Mas não se importou em recordar das brigas. Era preciso trazer gente para sua vida, mesmo que fossem apenas lembranças. Cheiro de feijão era o cheiro de casa que funcionava. Que tinha de tudo muito ou pouco: amor, raiva, magoas, tinha gente. A chuva parou. Seu coração sentiu que teria que tomar coragem e seguir em frente. Era um caminho novo e talvez isso a deixasse mais vulnerável em relação à pontualidade no trabalho. Era preciso voltar a caminhar, um pouco mais rápido agora. Seguia com os passos firmes e decididos quando um pipoqueiro arrasou com seu plano de concentração. Era com manteiga! Irresistível cheiro de parque e de roda gigante. De novo regressou à vida em que levava no interior com seus pais. Onde sua única preocupação era escrever seu nome completo na cartilha da escola. Nenhuma infância talvez fosse tão feliz sem esses dois ingredientes. Tudo que tinha festa tinha pipoca e tinha manteiga. Era isso. Tempo de ser feliz sem muita ansiedade. Tempo  de aproveitar sem muito se incomodar com futuros, sucessos e coisas da tal sociedade. Mais uma vez Ana Maria foi interrompida. Agora foi a vez da sirene do carro de polícia. Olhou o relógio. "Meu Deus, vou chegar muito atrasada!" Era preciso mais força para sair daquele pensamento, no entanto ela reagiu. Resistindo à tudo, seguiu correndo. Assim, quanto mais corria, mais os cheiros se misturavam e pode sentir de uma vez só vez o café, o frango assado, a carne cozida com pimentão, o churros com canela, a batata com manteiga. Aquela experiência num beco por qual decidira passar sem muita esperança. Seu coração batia tão forte que mal podia suportar acomodá-lo dentro do peito. Estava perto de cometer uma loucura. Aquelas brisas iam e vinham de todas as direções. Como num desenho animado pareciam fazer surgir uma mãozinha no meio da fumaça chamando em direção à origem de todo o banquete. Percebeu que estava com muita fome. E aquele sentimento ia crescendo como uma massa de pão. E ia borbulhando de forma que não suportou chegar ao trabalho. Neste momento, ali mesmo de onde estava, voltou. Decidiu se aproximar do seu portão e do sentimento de reencontro. Até que viu o que queria. Lá estava ela, em carne e osso e em pessoa. Ela mesma! De pé na beirada do fogão. Com o avental amarelado, os cabelos presos e um sorriso invejável. As lágrimas caiam-lhe pelo rosto. Quase não pode ouvir a porta bater. " Ana, você não foi trabalhar hoje?" "Oi, mamãe. Tinha um encontro muito especial com alguém que não via há anos.Você não acha que hoje está com jeito de chover o dia todo? A gente podia passar a tarde comendo sonhos e sendo feliz. Que acha?"






terça-feira, 5 de agosto de 2014

Verbo intransigente



Desfalar: palavra inexistente; modo popular de classificar o ato “involuntário” de muitos, inclusive políticos, de dizer uma determinada coisa e não admitir que disse; prometer e não cumprir; contradizer-se; escorregar  feito quiabo; mudar de opinião e não assumir; ato de dizer que não falou.

Estava pensando nesta mania que algumas pessoas têm de dizer que não falou determinada coisa, ideia, opinião, baboseira ou promessa. Por causa disso, em muitas ocasiões briguei, gritei, argumentei, falei mais alto, lutando e relutando com o tal desfalar. Torturava-me assistir aos programas políticos, onde candidatos usavam os exemplos da má administração da oposição para concluir que era hora de mudar. Votar em alguém que faria algo melhor. Mas passado o tempo da caça, os matadores se arrebanhavam num só grupo, dizendo-se mais fortes com o apoio dos adversários. Política das alianças, libertadora das ofensas e das maledicências, legitimadora do desfalar, pois não importa o que foi dito. “Na política, adversários; na administração, companheiros”.

E o povo cada vez mais sem entender. As palavras dos discursos se perdendo com o tempo, pois não há ação correspondente. Falar é uma coisa. Agir é outra. Hoje eu discurso e amanhã a gente discute! Depois dos resultados das urnas ninguém se recorda mais dos ataques. Agora já se lambem e se orgulham das crias, dos projetos inovadores fundados à base da unidade. Que seja feita a tua vontade!

E todos os anos eleitorais, o desfalar se repete, sendo parte integrante do elenco.
E o povo às oito e meia da noite a assistir, um homem falando...

Eleição me faz lembrar bastante do meu avô Geraldo. Homem que gostava de anotar todas as nossas “grandes falas”. Era alguém teimar e lá ia ele buscar seu caderninho meio ofício, com aspirais, pauta colegial e folhas amareladas.
 E de tempos em tempos, para ninguém se esquecer do que foi dito, vinha ele arrastando o chinelinho com a prova na mão. “Isso aqui, minha filha, é pra provar que foi fulano quem disse. Não gosto de mentiras. Olha aqui o que ele disse! Tem a data. Sempre escrevo embaixo foi fulano quem disse isso”.

Meu sábio avô. Sempre acreditando na legitimidade do seu caderninho...

Enquanto isso, a muitos quilômetros de sua terra natal, nada mudou. Políticos ainda continuam desfalando e, por vezes, se ferrando no país da grampolândia!  

sábado, 15 de março de 2014

Tem alguém dentro de mim


- Mãe, tem uma coisa me incomodando! Acordei com essa coisa, passei o dia e ela continua aqui. Quando chegou à noite achei que estaria livre. Mas nada! A coisa tá juntinho, não sai nem por reza brava.

             Calmamente Cristina fala ao telefone com a filha.

- Querida me diga os sintomas com riqueza de detalhe. É possível que mesmo de longe eu consiga lhe diagnosticar. Ou ao menos indicar um especialista para seu caso.
- Mãe, não consigo essa riqueza de detalhes (agora com a voz bastante irritada). O que eu poço lhe explicar é a sensação que tem alguém dentro de mim fazendo coisas que eu não quero. Por exemplo, eu amanheci com vontade de comer ovos mexidos com abacate. Eu odeio isso! E fui lá e comi uma pratada. Agora estou arrepiando só de pensar no que comi. Para aliviar pensei em ver um pouco de TV e me distrair. Foi pior. Eu parei em todos os canais de yoga, de meditação, de Lama sei lá o quê. Nunca vi nada disso na minha vida. Tenho uma antipatia tremenda com isso e estava lá hoje vendo tudo com muita curiosidade. Tem alguém dentro de mim! Eu sei. Vem aqui, pega um avião. Preciso de você aqui mãeeee.
- Filha mantenha a calma. Respira. Estou no meio de um plantão! Assim que conseguir uma folga vou pra São Paulo ficar uns dias com você. Mas vai ter que aguentar até o final dessa semana, tudo bem?
- Aí vai saber se até lá essa coisa já tomou conta de mim! Só espero que quando você chegar eu já não esteja morta!
- Julia, filha, pare com os exageros. Tome um suco de maracujá, você vai se sentir bem.
- Lá vem você com essas coisas naturebas. Odeio isso! Julia toma chá disso. Julia toma chá daquilo. Filha respira antes de falar. Mãe dá pra me ajudar mais ao invés de ficar receitando essas idiotices? Tenho até vergonha de falar que você é medica para minhas amigas. Parece mais uma raizeira. Ai ai ai (suspirou agora com a última gota de paciência).
- Querida não posso mais falar com você. Estão me chamando para um atendimento de urgência. Estarei aí em poucos dias e veremos quem é essa outra pessoa. Prometo que vou expulsá-la desse corpo que não a pertence. Mas por enquanto tente fazer coisas das quais gosta. Procure seus amigos e saia mais. Não fica com o pensamento fixo nessa outra pessoa. Vai deixando o dia correr normal. Quem sabe ela desiste de você?
- Ou eu desisto de mim né mãe? Tô te falando que o negócio tá feio. Porque você não fez xamanismo? Medicina não combina com você definitivamente. Mas tudo bem. Aguardo sua vinda...
- Julia sem agressões querida. Beijo. Te amo.
- Também. Apesar de não vir hoje...

A semana passou e Cristina não recebeu outro telefonema da filha. Preocupada com o silêncio de Julia, que costumava fazer escândalo com tudo e colocar a mãe como babá, a mãe resolveu ligar antes de comprar passagem. Até porque era um momento delicado no hospital com a mudança do novo diretor e ela precisava ficar mais presente.

- Alô, quem está falando?
- Ei mãe é a Julia. Não conhece mais a voz da sua filha?
- Nossa, mas está tão calma que cheguei a pensar que era uma amiga sua.
Risos.
- Está tudo bem querida?
- Ótimo! Decidi não brigar mais com aquele encosto e ele sumiu. Incrível mãe! O negócio que eu estava sentindo, aquela coisa comandando tudo lembra? Desapareceu. Acredita?
- Sim acredito. Está tudo bem mesmo então? Não quer que eu vá para São Paulo?
- Que isso mãe! De forma alguma. Sei que o hospital está confuso e você precisa ficar aí. Estou outra pessoa! Pode ficar despreocupada.
- Outra pessoa?
- É mais leve sabe... Aquela coisa de felicidade. Nada me incomodando.
- Sei. Fala mais sobre isso.
- Mãe desculpa. Agora não posso. Tem um programa do Dalai Lama aqui, entrevista exclusiva para falar sobre uma viagem para o Tibet. Tem uns amigos aqui em casa e a gente combinou de ver juntos. E depois meditar e coisa e tal.
- Entendi Julia.
- Falamos depois mãe?
- Sim querida. Falamos mais tarde.
- Tudo bem mãe. Um beijo.
- Outro.

        Cristina desligou o telefone com a impressão de que não tinha entendido nada. Ficou mais preocupada. Resolveu comprar a passagem. Essa coisa de felicidade era bem confusa. Julia precisava da sua ajuda, pensou.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

a rede de maricota: NATAL

a rede de maricota: NATAL

NATAL


NATAL: Dia bacana cheio de festas, de mesa farta (uma das coisas que mais gosto neste mundo), gente que amo num mesmo espaço, minha avó feliz, meu pai emocionado, gente que foi e eu queria que estivesse aqui... Tem sido isso pra mim desde muito tempo, espero que pra todo mundo, porque de alguma forma essa data serve pra reunir, celebrar e até brigar (por que não?). Natal não é o dia mais fantástico do ano nem a data mais legal nem faz sentido pra quem não tem religião. Tornou-se para mim um dia especial porque todo mundo tende (alguns não) a se reunir, contar causos, brincar, abrir presentes e comer e beber muito, coisa que todo brasileiro gosta. Para outros, dos quais a data tem sentido específico, rezam e homenageiam o menino Jesus. Cada qual com suas crenças. Natal é rito, costume, cheio de exageros e pieguices, faz parte também da mesa tudo isso. Mal passado ou bem passado, o certo é que muitos gostam de comemorar. Eu ando cansada um tanto dos preparativos de Natal e este ano, extraordinariamente, tive tempo até de sentar em frente ao PC, abrir o facebook (no caso copiar no Blog) e escrever esse monte de baboseiras, mas que fazem sentido na minha vida. 
Como somos seres reflexivos é nesta época que costumamos parar mais tempo para os balanços. Não deveria ser? Não sei. Acho que isso vai de cada um. Eu preciso de mais tempo. Não gosto de misturar cerveja com pensamento, não presta muito (no meu caso). Mas como me dá coceira ver esse monte de Feliz Natal e não dizer nada vai lá o que penso (quem não gostar, FELIZ NATAL). 

Hoje e amanhã serão dias especiais porque terei por perto pessoas que amo e por quem me preocupo 365 dias do ano. Vai ser legal, pois elas vão falar muito, todas juntas e eu ficarei feliz com o coro ainda bem completo. Apesar de ter perdido as vozes de alguns, ainda temos outros e alguns que vão aparecendo na nossa vida e completando os furos, a sua maneira. É por isso que amo qualquer tipo de comemoração. É um pretexto pra esse povo que anda sem tempo, atribulado com as mudanças de 2012 e 2013 (difíceis e amargas) ficarem juntas. Tempo de parar pra dizer, nossa estava com saudades! Não me preocupei com presentes, não quero ganhar nada, nem quero comprar nada (acho insuportável shopping, lojas abarrotadas, gente te atendendo mal, porque é NATAL). Espero que o meu Natal seja um dia em família como tantos dias. E que todos juntos tenham mais força pra pensar como ano que vem teremos outros desafios um tanto grandes pra enfrentar. Mas que vale a pena porque temos uns aos outros (uns mais que outros). Só isso.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

a rede de maricota: Mistérios da vida

a rede de maricota: Mistérios da vida

Mistérios da vida

     Alice corria de um lado para o outro passando as mãos pelos cabelos. Fazia um esforço danado para lembrar-se onde a neta teria ido. “Como Luciana poderia abandoná-la daquele jeito”, questionava.  Ela era uma mulher de mais de 70 anos, morava sozinha e contava com a companhia da adolescente todas as noites. Período em que se sentia mais só e angustiada. Por isso a família decidira que alguém teria que ficar com Alice todas as noites para evitar qualquer acidente. A neta tinha disponibilidade e aceitou com carinho passar aquele tempo com a avó.
     Mas definitivamente não dava para entender porque ela sumira sem avisar, ao menos dizer quanto tempo ficara fora. Outra vez Alice ia até a cozinha, abria os armários, tentava encontrar alguma pista do desaparecimento de Luciana. Procurou dentro dos armários do quarto. “Quem sabe a danadinha estava lhe pregando uma peça?” Nada. Nem sinal de gente alguma. “Ah, tinha o quintal”, pensou. Alice recordou que Luciana gostava de catar flores secas para fazer suas caixinhas de artesanato. Pisou no quintal e ficou assustada com o que viu. Não havia árvores muito menos folhas secas no chão. “Que cabeça a minha! Esse quintal deve ser de outra casa. Não estou na minha casa.” Essa revelação provocou mais ansiedade e confusão. Onde estaria afinal, se ali não era sua bela casa de paredes rosa e cercada pelo jardim de hortênsias? As lágrimas começaram a brotar. Queria gritar por Luciana. Todas as luzes lá fora estavam apagadas. Já passavam das 22 horas.
     Alice gostava de rezar. Era muito religiosa. Viu que mesmo ali não sendo familiar ela poderia contar com um altarzinho em um dos quartos. Resolveu acender uma vela e bem baixinho começou a pedir para um dos santos. Ela desejava muito encontrar Luciana. Voltar para sua casa. Estava com muito medo.
As orações lhe davam mais confiança. Acreditava que o sentimento era uma graça concedida. A tranquilidade a fez raciocinar melhor e deixar um pouco de lado as tentativas de encontrar na memória a resposta para aquele mistério. “O único lugar que não procurei foi o banheiro. Quem sabe Luciana estaria lá.” Chegando mais perto do cômodo, viu pelas frestas da porta que a luz estava acesa. Aproximou mais ainda da porta e ouviu a voz de Luciana. Estava cantando no chuveiro! Agora totalmente calma Alice aguardou a saída da neta. Luciana saiu contente e se assustou com a avó plantada bem ali na sua frente.
     - Vovó, que foi isso? Disse a menina sem entender a situação.
    - Luciana, eu achei que tivesse me abandonado, minha filha! Procurei pela casa toda e você não estava.  Depois de muito tempo vi as luzes acesas. Aí me lembrei de que havia dito que entraria para o banho.
   - Vovó, eu demorei apenas dez minutos no chuveiro! A senhora estava vendo novela por isso não me preocupei em me apressar!
   - Esqueci completamente que me falou isso... Bom, mas agora que solucionamos o seu sumiço, me leva pra casa, Lucina?
     Calmamente a menina, que já estava acostumada com os esquecimentos da avó, tomou-a pelos braços e disse:
  - Vovó, temos outro grande mistério pra resolver. Definitivamente, precisamos plantar mais hortênsias naquele pedaço de terra que ainda resta no seu quintal. Quem sabe voltamos para rosa a cor das paredes?
   - Luciana, sabe que é uma boa ideia. Engraçado que por um momento achei que estivesse na casa errada!


domingo, 22 de setembro de 2013



Retrato com cheiro

Era um dia sem muita coisa pra fazer. Marieta resolveu ir ao mercado e aproveitar para dar umas voltas no bairro. Ver as mesmas pessoas, porém com outra expressão. Afinal era domingo. Dia de sair com a família. Tomar sorvete. Brincar de soltar pipa com as crianças na praça. Andar de bicicleta. No caminho sentiu cheiro de churrasco. Isso a fez voltar no tempo. Remetia aos dias de festa, de cair na piscina. Ficou pensando na vida em família, quando era bem pequena. Suas preocupações com as tarefas domésticas começavam a desaparecer. Davam lugar a uma imensidão de recordações. Depois do churrasco vinha o calor do final de tarde, a preguiça, a vontade de dormir.

Era tão bom pensar nos finais de semana que rebobinava outras imagens na cabeça. Domingo também era motivo para os passeios na casa dos avós. Junto com o cheiro de frango assado ao alho vinham as lembranças da mesa cheia, dos risos, das brigas em família. Que prazer retornar àquele tempo! Dava certa leveza à vida. Um descanso em meio ao tumulto de trabalhos e obrigações. Ela tinha a impressão de que as imagens associadas a cada cheiro iam amenizando a pressão no pescoço. Os ombros contraídos agora ficavam menos doloridos.
Já estava escurecendo e Marieta precisa voltar pra sua casa. Concentrar no restante dos serviços e preparar para uma nova semana. Ao menos a tarde na praça tinha sido agradável. Cheia de gente, morta e viva. Juntas em suas recordações. Como era bom fazer aquilo de vez em quando. Olhar o álbum de retratos imaginários. Tinha cheiro, o mais interessante. Ainda não inventaram álbum com cheiros, ela pensou. Quem sabe essa ideia daria uma boa invenção? Sorriu com sua grande questão. Tomou o rumo de casa mais feliz do que quando saiu pra comprar umas coisinhas.

No caminho passou perto do quintal da vizinha Jurema. Estavam cozinhando feijão com folhas de louro. Poxa, era o cheiro da sua casa nas segundas-feiras, pensou. Feijão cozido produzia a lembrança do tempo em que as coisas tinham outro ritmo. Casa com gente, com café na mesa e depois almoço na hora certa. Quando criança achava tudo muito chato e cheio de disciplinas. Mas agora era importante lembrar-se daqueles detalhes. Principalmente porque trazia uma sensação de conforto, segurança. Sorriu novamente. O domingo acabava.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Depois do fim do mundo




Levantei com o despertador esgoelando nos meus ouvidos. Eram 10 horas e eu com reunião marcada por volta das 11. Estava meio tonta ainda, pisando alto. Tomei um banho tipo lava a jato. Engoli o café sem açúcar me perguntando como tinha encontrado o pó e o coador naquela bagunça de cozinha. Caminhei até a sala para pegar a chave do carro que sempre fica em cima da mesinha de canto. Quase queimei minha língua com o café tamanho o susto ao me deparar com aquele cômodo. Percebi que não estava em casa. Tinha feito café na cozinha de alguém e estava no apartamento de sabe lá de quem. Era o fim! Nunca antes em toda minha média vida tinha acontecido um negócio daquele. Mas como isso sucedeu? Não me lembrar de nada? Tudo muito estranho.

Andando mais um pouco na sala, que era daquelas de capa de revista de arquitetura, bonita pra chuchu, senti um odor estranho. Puta merda! Cheiro de enxofre! Quase morri sufocada. Coisa escalafobética. Fiquei nervosa, mas tentei raciocinar. Bom, se eu não estava na minha casa, precisava descobrir como fui parar naquele lugar. De repente, uma pontada na cabeça. Que dor horrível! Levei a mão no alto da cabeça e percebi uma montanha. Corri para olhar no espelho e vi aquela coisa imensa entre meus cabelos. Uma só não. Duas coisas, ou melhor, galos. Era o fim!

Já estava no auge da minha preocupação. Decidida a pegar o telefone e chamar a polícia. Dizer que sofri um sequestro relâmpago e estava com muito medo de sair sozinha daquela casa. Sei lá, alguma coisa que trouxesse um ar de responsabilidade àquela situação tão pouco sem juízo. Mas o pior ainda estava por vir. Avistei no final do corredor uma porta. Fechada! Sinal que alguém ainda dormia. Ai minha nossa senhora! Era a hora da revelação. Caminhei sorrateiramente até a porta. Abri bem devagar tentando fazer barulho quase zero. Pronto! Agora tinha ferrado tudo.

Todo aquele cheiro de enxofre tinha fundamento. Era o capeta em pessoa que morava ali. A euforia de aproveitar tudo num mesmo dia em função do fim do mundo tinha dado resultado rápido. Mal havia acabado a festa e eu tinha parado no inferno! Junto do bicho feio, do cambito, pé-preto,  maioral, demo, ai minha santinha junto do excomungado. Olha lá! Aquilo era um chifre. Não aguentava olhar, precisava de uma coberta para enfiar debaixo. Que vontade de chorar. Pra que pecar tanto num dia só? E o mundo, aquela bosta, tinha ou não acabado? Resolvi encarar o bicho. Parti pra cima dele com unhas e dentes. Vamos enfrentar os medos. Tá no inferno abraça logo! E fui.

Quase matei Dona Jandira! Era minha vizinha na cama. Ela tinha aproveitado a onda de fim do mundo e foi brincar com o marido daquelas fantasias de sex shopping. A maldita já é maltratada e ainda me coloca uma fantasia de capeta. Maldição! A bicha tinha conseguido piorar a situação. Quase matei a mulher! Pedi mil desculpas. Expliquei que tinha acabado de acordar e não estava entendendo nada. Aí ela me disse que eu cheguei tão bêbada que entrei na porta errada, pois ficava destrancada. Como eu já estava no quarto feito uma morta estatelada na cama da filha da Dona Jandira, a pobre senhora resolveu me deixar dormir o sonho dos anjos. Só se esqueceu de me avisar que acordaria com o capeta! Tadinha da Dona Jandira. Eu a chamando de demo, enquanto salvou minha vida. Logo naquele dia que o mundo ia acabar em barranco!
Suspirei aliviada de tudo. Enfim não tinha feito tanta bobagem (ou não) quanto pensava. Tudo mais esclarecido. Apenas um pilequinho para comemorar o fim do mundo. Fui saindo devagarinho, com sorriso amarelo, pedindo licença para a mulher ainda sonolenta. “Boa tarde pra senhora, Dona Jandira. Ah Feliz Natal adiantado!”

Era melhor tratar de trabalhar. E bem. Porque outra notícia sobre fim do mundo só acredito quando os astrônomos confirmarem de verdade. Esse negócio de acreditar em astrologia em si pode até funcionar, comigo é que foi péssimo. De-fi-ni-ti-va-men-te! 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Asas da liberdade

Olhou para o outro lado da rua. Uma indecisão lhe tomava o corpo. Era como se estivesse congelado, preso naquele lado da rua. As pessoas trombavam em seu braço, em suas pernas. Sentia que incomodava o mundo. Não sou bem aceita aqui, pensou Nora. Estava difícil acreditar que ela fazia alguma diferença na vida das pessoas. Todo modo que agia incomodava alguém de certa forma. Começou a lembrar de cada um de seus amigos e familiares e das opiniões a seu respeito.

- Nora, você precisa melhorar esse cabelo, minha filha. Tem que passar uma tinta aí. E se for passar, vê se escolhe o vermelho escuro, combina mais com você.

- Nora, querida, eu estou te achando triste. Está muito tempo em casa. Precisa se abrir mais para os amigos. Você anda muito distante.

- Puta merda! Essa é você mesma? Se eu fosse você procurava um daqueles médicos porretas e fazia uma lipo. Sua barriga está estranha, Nora. Só estou te falando isso porque sou sua amiga. Alta autoestima é tudo!

- Lindinha, quantas vezes já lhe disse que precisa arrumar um emprego fixo, com carteira assinada, de preferência na sua área. Tenho um monte de lugar que posso lhe indicar. Estão precisando de gente. Você também nem se mexe!

- Nora, eu se fosse você procurava qualquer emprego, o importante é estar no mercado! Você não pode acordar tão tarde. A vida começa cedo, menina.

- Eita, tá precisando dá um tapa no visual. Comprar roupas de marca para impressionar, andar mais em shoppings, ir às baladas. Tá ficando muito velha com este estilo que anda por aí.

- Já casou Nora? Uai precisa casar menina! Tá passando da idade de ter filhos. Ou você prefere ficar pra titia. Ficar para solteirona é muito triste, você vai morrer sozinha, sem ninguém!

- Nora, já sei! Pinta o cabelo de loiro. Os homens gostam é disso. Mulher com peitos à mostra, bunda empinada e cabelo loiro. É super sensual!

- Sei não viu. Você precisa é de uma psicóloga, fazer terapia, essas coisas de gente com problema demais.

- Nora não gasta tanto dinheiro com sua casa. Vai viajar. Quem sabe no caminho você arruma um namorado. Você tá muito sozinha.

- Nora precisa é ter Deus no coração. Só isso que precisa, mais nada!

Era como se as pessoas estivessem ali do seu lado falando, falando e falando. Enquanto isso seus músculos pareciam enrijecer mais. Nora não conseguia atravessar a rua. O sinal para pedestres já tinha aberto pelo menos umas cinquenta vezes, desde que começara a tentar contar. Ela não entendia a reação do seu corpo. Tudo bem que aquelas cobranças diárias sobre o que devia ou não fazer da sua vida eram comuns. Ela acreditava que havia aceitado todas. Tinha para si que precisava mesmo mudar.

De repente Nora teve outro pensamento. Para que deveria mudar? Quando começou a agir como ela acreditava ser o certo, sentiu uma sensação de liberdade. Tomava decisões sem muita preocupação. Não tinha uma pedra na garganta, a cabeça quase não doía. Estava feliz daquele jeito, apenas queria um pouco do carinho dos amigos. O problema era que eles não entendiam o seu comportamento e por isso às vezes se afastavam.  

Mas agora batia uma indecisão. Continuava ela mesma ou seguia os conselhos e mudava? Cada vez que pensava, mais travava suas pernas. Quem sabe era melhor parar de pensar. Respirar fundo, tentar concentrar na luz verde do sinal e vagarosamente se arrastar até o outro lado da rua. Sua casa estava logo ali na esquina. Seu estômago roncava de fome. Tentou novamente sair e nada. Tudo pesado ainda. Começou a chorar. As lágrimas desciam feito cachoeira pelo rosto. Não podia conter os soluços. Até que um senhor já de meia idade parou impressionado com a situação.


-Minha filha será que posso lhe ajudar de alguma forma? Estou vendo que está chorando muito.

- Preciso seu moço atravessar a rua e não consigo andar. Só isso. Minha casa fica do outro lado.

- Então segura no meu braço que te ajudo se for esse o problema. Vamos devagar, mas conseguimos.

Os dois atravessaram a rua. Já do outro lado Nora sentiu menos peso. Não entendia o motivo. Mas a angústia tinha acabado. Agradeceu ao senhor que logo sumiu dobrando a esquina. Subiu para seu apartamento. Já não sentia fome, apenas uma leveza incomum. Nora agora observava de sua janela as duas esquinas. Procurava entender como os sentimentos tinham mudado de um lado para o outro. Era tarde e estava sem sono. Ficou a noite toda olhando. Engraçado como tudo parecia muito simples.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Uma vida cheia de fantasmas



Todos os dias eles estão na minha casa. Entram e saem na verdade. Beijam às vezes meu rosto. Tomam café comigo. Quando assusto estão no quintal, colhendo goiabas, fazendo tachadas de doces. Brindam em nossas festas, sentam ao nosso lado, ouvem histórias e riem junto com a gente. Até mesmo de seus deslizes, erros, exageros.  Há dias em que voltam a ser crianças levadas da breca. Chutando a canela dos adultos, matando formigas pra fazer experiência, e querendo a atenção de quem estiver por perto. Em outro tempo já se apresentam como adultos debochados e cheios de manias.  Mas são nos dias de seus aniversários e nos feriados que passam mais tempo com a gente. Já começam cedo a lavar a área da churrasqueira, arrumar a casa, mexer a comida e até a arriscar palpites. “Se fosse eu colocaria mais pimenta, menos sal, deixava a massa mais tempo descansando”.

Debochados, bravos, sinceros, chatos e de um amor sem tamanho. São assim nossos fantasmas. Estão sempre com a gente. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza. Amém. Qual o motivo então de existir um dia para nos forçar a ser tristes? A reconstruir na memória todos os trajetos de certos dias fatídicos? Se a razão for ter um momento pra rezar, orar, meditar, pedir, energizar por eles, que sejam todos os dias. Que sejam incluídos em nossas vidas. Na verdade eles estão. Tudo é rito mesmo. Importante pra uns, sem motivo pra outros.

Bobagem pra mim. Os meus fantasmas já comem da minha comida diariamente. Eles estão aqui e ali, em cada pensamento, ato e palavras soltas. Durante todos os dias da minha vida até que a morte nos separe (ou, segundo alguns que dizem saber, nos encontre).

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Universo Paralelo


Parte 1
A missionária

Saiu de casa cedo. Como sempre, antes de ir, deixava o café pronto para os filhos, o pão novinho e as xícaras de cada um sobre a mesa. Eram três. Não tinha marido. Ficara viúva muito nova e decidiu não se casar mais. Sentia falta de um companheiro, mas alegava que isso tomaria muito do seu tempo.

- Tenho tanta coisa pra fazer. Não posso pensar em me relacionar com alguém. Só vou dedicar aos meus filhos. Justificava-se para os amigos que a importunavam sempre com a intenção de apresenta-la a mais um pretendente.

A rotina de Elza era sempre a mesma. Café, acordar os filhos, faxina na casa da Dona Mercês, vendinha do bairro, preparar a janta que daria para o almoço do dia seguinte. Sair nem pensar. Conversar com as vizinhas muito menos.

Por anos viveu assim. Sozinha, sem muitos amigos. Só mesmo a Josefa e o Luiz que continuavam insistindo em visita-la. Mas se dependesse da boa vontade dela, não veria mais ninguém.

Os filhos já estavam grandes e ela percebia que a cada dia mais perdia o fio da comunicação com eles. A convivência se resumia em quase meia dúzia de palavras por dia. Sentia um vazio tremendo. Uma falta de sentido em sua vida. Tudo era uma mistura de desânimo com obrigações rotineiras. Tentava se apegar às ocupações por conta dos filhos e do trabalho na casa da Dona Mercês, que já estava bem velhinha e dependia dos seus cuidados.

Pois bem. Um dia os filhos anunciaram que iam moram em Salvador com o pai. Tinham uma boa proposta de emprego e tudo estava encaminhado por lá. O pai nunca dera pensão e seria uma grande oportunidade de ajudar. Além de tentarem uma reaproximação. Elza quase morreu de tanto chorar. As visitas de Josefa e Luiz passaram a ser quase que diárias. Não entendia a escolha dos filhos. Ainda mais morar com o pai, que nunca fora lá grandes coisas. Ela que tanto dedicou a vida por eles. Era injusto demais.

Para piorar a situação que não estava nem um pouco boa, Dona Mercês morreu. Seu mundo definitivamente não tinha mais valor. Ela perdera tudo de uma vez só. Tudo que fazia algum sentido ou alguma ocupação. Muito complicado viver com o abandono e a morte. E agora o que seria sua vida? Quem sabe seria bom se preocupar com outras coisas? Ver outras ocupações? Reinventar a vida? Os amigos a questionavam. Mas Elza não respondia a qualquer estímulo.

Certo dia, já bem tarde, Elza passava pela pracinha de seu bairro. Viu uma luzinha acessa e muitas pessoas cantando. Sentiu certo conforto e resolveu aproximar. As pessoas fechavam os olhos e colocavam cuspes e orações pra fora, embalados numa música de fundo. Era a música que ouvira de mais longe. Ficou curiosa. Queria entender como funcionava aquele transe que seus olhos viam. Como as pessoas podiam fazer aquilo? Quem estava por trás disso? Elas vestiam o mesmo tipo de roupa. Uniformizadas e falando de um mesmo lugar. De outro mundo que não era o seu. Parecia ser melhor, bem melhor. Decidiu ficar. Ficou pra sempre.

- Bom dia meu irmãos. Eu sou a missionária Elza. Estou aqui para dar o meu testemunho. Antes eu era uma pessoa perdida, que não via sentido em nada. Hoje meu mundo tem cores de rosa, verde, amarelo. Antes tudo era escuridão e tristeza. Hoje moro neste mundo, onde a oração é minha principal arma e a ajuda pra tudo vem de cima e de mais ninguém. Aqui não existe guerra, fome, traição, pobreza, depressão, luxúria, pornografia. Por isso temos de contribuir para que este mundo cresça. Este mundo me salvou. E pode salvar você também. Glória!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Sacada de mestre




A morte em si é ingênua. Na verdade o que nos faz sofrer são os andamentos de tudo.

Lá vem ela de novo. A falta do contato físico. O processo de aceitar que ela levou alguém. 

Não é má nem bruxa. Talvez seja aquela que equilibra, transforma, organiza.

A morte tem o dom de deixar algumas relações insignificantes. Quem nunca abraçou o inimigo depois de uma grande perda? Tudo é mesmo relativo. Não é hipocrisia. O ódio só é muito enquanto não há grandes perdas. É comum as coisas ficarem sem importância.

A morte organiza a atenção. Com o vazio ela mostra o quanto precisamos dos outros. O quanto cabe na nossa sala de estar, nos espaços em branco. E a gente encontra um, outro, mais outro. A vida tem nova redistribuição.

A morte não deixa buracos. Ela coloca obturações. Ninguém é mais o mesmo. Nenhuma ferida é mais a mesma. E como todo reparo é preciso cuidado.  

Também tem a hora de deixar a morte de lado. Cansa pensar nela. É bom falar das pessoas que se foram com mais alegria. E é lógico ter tempo para as piadas, situações engraçadas.

É a mais pura verdade dizer que a morte sempre vai representar o início. Não que eu a venere. Agora parece absurdo dizer isso, mas a morte carrega consigo uma sacada de mestre. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012


Dos armários

Era final de expediente. O calor incomodava Ana apesar das parafernálias de ar condicionado, persianas inteligentes. Seria outro dia comum, não fosse sua necessidade repentina de abrir o armário. Ela não viu função para aquela bobagem de abrir um armário sem motivo algum. Quando o abria era para organizar os livros de um lado, as revistas de outro, os filmes daquele. Gostava de verificar a utilidade dos materiais, como se tornariam projetos ou novas ideias. Arquivo era tratado como coisa viva. Estava ali pra ser folheado. Pra indicar como proceder ou simplesmente não fazer. Tudo tinha um porquê. Mas agora não existia um motivo para levantar e puxar suas portas. Era hora de deixar o armário.

Daquele dia em diante aquele objeto quadrado tinha se transformado em armário. Peça de escritório. Quem olharia pra ele? Bom, as pessoas que gostam de armário, ela pensou. Ou quem percebesse que estava sujo, talvez. E as coisas, o monte de trem, a bagunça? É verdade. Estavam todos na posição da última mexida. Mas agora sem alma. Era mesmo gente que faltaria. Ana entendeu que mesmo que outras pessoas lhe dessem “vida”, nunca mais os objetos teriam o mesmo sentido.

E ela pensou que muitos armários viviam constantemente sem alma. Era desesperador. Pegou um dos trabalhos empilhados. Lembrou-se das horas empenhadas, stress, dor de barriga, náuseas, insônias e por fim o mérito. Teve a sensação que o papel esquentava na sua mão. Como se tivesse sangue circulando rapidamente nas páginas. Voltou com eles para o armário ajeitando-os como filhote no ninho. Como ficariam os projetos famintos? Quem os alimentaria? Ela dava comida, mesmo quando a dificuldade era grande. E agora?

Lembrou-se de uma velha amiga que lhe dizia sempre: “Ninguém é insubstituível”. A recordação lhe trouxe certo conforto. Em todo tempo é tempo de outras pessoas, de novos olhares, de outras dedicações. Fechou as portas daquele armário e com carinho deixou suas chaves à vista. Quem sabe a novidade seria mais rápida do ela estava imaginando...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pra não dizer que não falei de como me sinto



É hora de agir. Sabe que tem uma grande decisão pela frente. A barriga dói, ansiedade aumenta. Tenta ficar firme porque a escolha depende de você. O que o faz pensar que é necessário ficar calmo? A razão? Respirar lentamente e centrar na questão. Avaliar as possibilidades do sim e do não. Medo? Mais que comum. Liga pra alguém. Um amigo a quem confia seus segredos. O pai a lhe dar conselhos maduros. Alguém que viveu bons pedaços. Quer falar com sua avó. A experiência dela lhe traz a segurança de que certas decisões são necessárias. Escuta música. Liga para outro amigo. Talvez chore um pouco. É certo que a qualquer hora o tabuleiro vai se alterar. Come um doce. Dois. Três. Um pacote deles.


Senta num canto qualquer. Apega-se aos seus critérios de escolha. Eles passam pelas experiências concretas, pela moral e pelo senso humanista. Eles pautam suas decisões. Não há outros intermediários. Eles nunca existiram dentro de você. Um dia você tentou por pressões externas, comodidade, aceitação... Talvez. Mas não crê que alguém que nunca existiu pra você possa te ajudar. Não existe. Sem link e vias. Em determinada época você aceitou colarem em suas querências da mesma forma em que o homem de lata aceitou a figura do coração. Você colou e tentou acreditar. Não aconteceu o espaço. É muita força que se tem que fazer quando algo é figura sem sentido. O homem de lata acreditou no coração. Eu não acreditei no que tentei colar em mim.

A xícara de café bem quente sem açúcar. Gole e pensamento. Pausa. Outro gole já frio. Olha a chuva. Esquece-se da decisão. Enxerga que você é infinitamente pequeno diante de tantos problemas no universo. Seu problema fica menor. Bem menor. Você é um pontinho quase apagado. A barriga para de doer. Cessa a chuva e o sol brilha. Tudo queimando novamente. Nada muda porque você muda. Não é uma catástrofe. A ansiedade some. A fome aumenta. Tudo vivo dentro de você. Anima-se. Decide. Liga pra alguém. Quer comemorar a escolha.