Olhou para o outro lado da rua. Uma indecisão lhe tomava o
corpo. Era como se estivesse congelado, preso naquele lado da rua. As pessoas
trombavam em seu braço, em suas pernas. Sentia que incomodava o mundo. Não sou
bem aceita aqui, pensou Nora. Estava difícil acreditar que ela fazia alguma diferença
na vida das pessoas. Todo modo que agia incomodava alguém de certa forma.
Começou a lembrar de cada um de seus amigos e familiares e das opiniões a seu
respeito.
- Nora, você precisa melhorar esse cabelo, minha filha. Tem
que passar uma tinta aí. E se for passar, vê se escolhe o vermelho escuro,
combina mais com você.
- Nora, querida, eu estou te achando triste. Está muito tempo
em casa. Precisa se abrir mais para os amigos. Você anda muito distante.
- Puta merda! Essa é você mesma? Se eu fosse você procurava
um daqueles médicos porretas e fazia uma lipo. Sua barriga está estranha, Nora.
Só estou te falando isso porque sou sua amiga. Alta autoestima é tudo!
- Lindinha, quantas vezes já lhe disse que precisa arrumar um
emprego fixo, com carteira assinada, de preferência na sua área. Tenho um monte
de lugar que posso lhe indicar. Estão precisando de gente. Você também nem se
mexe!
- Nora, eu se fosse você procurava qualquer emprego, o
importante é estar no mercado! Você não pode acordar tão tarde. A vida começa
cedo, menina.
- Eita, tá precisando dá um tapa no visual. Comprar roupas de
marca para impressionar, andar mais em shoppings, ir às baladas. Tá ficando
muito velha com este estilo que anda por aí.
- Já casou Nora? Uai precisa casar menina! Tá passando da
idade de ter filhos. Ou você prefere ficar pra titia. Ficar para solteirona é
muito triste, você vai morrer sozinha, sem ninguém!
- Nora, já sei! Pinta o cabelo de loiro. Os homens gostam é
disso. Mulher com peitos à mostra, bunda empinada e cabelo loiro. É super
sensual!
- Sei não viu. Você precisa é de uma psicóloga, fazer
terapia, essas coisas de gente com problema demais.
- Nora não gasta tanto dinheiro com sua casa. Vai viajar.
Quem sabe no caminho você arruma um namorado. Você tá muito sozinha.
- Nora precisa é ter Deus no coração. Só isso que precisa,
mais nada!
Era como se as pessoas estivessem ali do seu lado falando,
falando e falando. Enquanto isso seus músculos pareciam enrijecer mais. Nora
não conseguia atravessar a rua. O sinal para pedestres já tinha aberto pelo
menos umas cinquenta vezes, desde que começara a tentar contar. Ela não
entendia a reação do seu corpo. Tudo bem que aquelas cobranças diárias
sobre o que devia ou não fazer da sua vida eram comuns. Ela acreditava que havia aceitado
todas. Tinha para si que precisava mesmo mudar.
De repente Nora teve outro pensamento. Para que deveria
mudar? Quando começou a agir como ela acreditava ser o certo, sentiu uma
sensação de liberdade. Tomava decisões sem muita preocupação. Não tinha uma
pedra na garganta, a cabeça quase não doía. Estava feliz daquele jeito, apenas
queria um pouco do carinho dos amigos. O problema era que eles não entendiam o seu
comportamento e por isso às vezes se afastavam.
Mas agora batia uma indecisão. Continuava
ela mesma ou seguia os conselhos e mudava? Cada vez que pensava, mais travava
suas pernas. Quem sabe era melhor parar de pensar. Respirar fundo, tentar
concentrar na luz verde do sinal e vagarosamente se arrastar até o outro lado
da rua. Sua casa estava logo ali na esquina. Seu estômago roncava de fome.
Tentou novamente sair e nada. Tudo pesado ainda. Começou a chorar. As lágrimas
desciam feito cachoeira pelo rosto. Não podia conter os soluços. Até que um
senhor já de meia idade parou impressionado com a situação.
-Minha filha será que posso lhe ajudar de alguma forma? Estou
vendo que está chorando muito.
- Preciso seu moço atravessar a rua e não consigo andar. Só
isso. Minha casa fica do outro lado.
- Então segura no meu braço que te ajudo se for esse o
problema. Vamos devagar, mas conseguimos.
Os dois atravessaram a rua. Já do outro lado Nora sentiu
menos peso. Não entendia o motivo. Mas a angústia tinha acabado. Agradeceu ao
senhor que logo sumiu dobrando a esquina. Subiu para seu apartamento. Já não
sentia fome, apenas uma leveza incomum. Nora agora observava de sua janela
as duas esquinas. Procurava entender como os sentimentos tinham mudado de um
lado para o outro. Era tarde e estava sem sono. Ficou a noite toda olhando. Engraçado como tudo parecia muito simples.

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