Reunir pessoas que gostam de ler. Entrelaçar histórias, um pouco minhas, um tanto de outras pessoas. Formar uma rede de casos e causos. Seja bem-vindo!
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Mistérios da vida
Mas definitivamente não dava para
entender porque ela sumira sem avisar, ao menos dizer quanto tempo ficara fora.
Outra vez Alice ia até a cozinha, abria os armários, tentava encontrar alguma
pista do desaparecimento de Luciana. Procurou dentro dos armários do quarto.
“Quem sabe a danadinha estava lhe pregando uma peça?” Nada. Nem sinal de gente
alguma. “Ah, tinha o quintal”, pensou. Alice recordou que Luciana gostava de
catar flores secas para fazer suas caixinhas de artesanato. Pisou no quintal e
ficou assustada com o que viu. Não havia árvores muito menos folhas secas no
chão. “Que cabeça a minha! Esse quintal deve ser de outra casa. Não estou na
minha casa.” Essa revelação provocou mais ansiedade e confusão. Onde estaria
afinal, se ali não era sua bela casa de paredes rosa e cercada pelo jardim de
hortênsias? As lágrimas começaram a brotar. Queria gritar por Luciana. Todas as
luzes lá fora estavam apagadas. Já passavam das 22 horas.
Alice gostava de rezar. Era muito
religiosa. Viu que mesmo ali não sendo familiar ela poderia contar com um
altarzinho em um dos quartos. Resolveu acender uma vela e bem baixinho começou
a pedir para um dos santos. Ela desejava muito encontrar Luciana. Voltar para
sua casa. Estava com muito medo.
As orações lhe davam mais
confiança. Acreditava que o sentimento era uma graça concedida. A tranquilidade
a fez raciocinar melhor e deixar um pouco de lado as tentativas de encontrar na
memória a resposta para aquele mistério. “O único lugar que não procurei foi o
banheiro. Quem sabe Luciana estaria lá.” Chegando mais perto do cômodo, viu
pelas frestas da porta que a luz estava acesa. Aproximou mais ainda da porta e
ouviu a voz de Luciana. Estava cantando no chuveiro! Agora totalmente calma
Alice aguardou a saída da neta. Luciana saiu contente e se assustou com a avó
plantada bem ali na sua frente.
- Vovó, que foi isso? Disse a
menina sem entender a situação.
- Luciana, eu achei que tivesse
me abandonado, minha filha! Procurei pela casa toda e você não estava. Depois de
muito tempo vi as luzes acesas. Aí me lembrei de que havia dito que entraria
para o banho.
- Vovó, eu demorei apenas dez minutos
no chuveiro! A senhora estava vendo novela por isso não me preocupei em me
apressar!
- Esqueci completamente que me
falou isso... Bom, mas agora que solucionamos o seu sumiço, me leva pra casa,
Lucina?
Calmamente a menina, que já
estava acostumada com os esquecimentos da avó, tomou-a pelos braços e disse:
- Vovó, temos outro grande
mistério pra resolver. Definitivamente, precisamos plantar mais hortênsias
naquele pedaço de terra que ainda resta no seu quintal. Quem sabe voltamos para
rosa a cor das paredes?
- Luciana, sabe que é uma boa
ideia. Engraçado que por um momento achei que estivesse na casa errada!
domingo, 22 de setembro de 2013
Retrato com cheiro
Era um dia sem muita
coisa pra fazer. Marieta resolveu ir ao mercado e aproveitar para dar umas
voltas no bairro. Ver as mesmas pessoas, porém com outra expressão. Afinal era domingo.
Dia de sair com a família. Tomar sorvete. Brincar de soltar pipa com as
crianças na praça. Andar de bicicleta. No caminho sentiu cheiro de churrasco. Isso
a fez voltar no tempo. Remetia aos dias de festa, de cair na piscina. Ficou
pensando na vida em família, quando era bem pequena. Suas preocupações com as
tarefas domésticas começavam a desaparecer. Davam lugar a uma imensidão de
recordações. Depois do churrasco vinha o calor do final de tarde, a preguiça, a
vontade de dormir.
Era tão bom pensar nos finais de
semana que rebobinava outras imagens na cabeça. Domingo também era motivo para
os passeios na casa dos avós. Junto com o cheiro de frango assado ao alho vinham
as lembranças da mesa cheia, dos risos, das brigas em família. Que prazer
retornar àquele tempo! Dava certa leveza à vida. Um descanso em meio ao tumulto
de trabalhos e obrigações. Ela tinha a impressão de que as imagens associadas a
cada cheiro iam amenizando a pressão no pescoço. Os ombros contraídos agora
ficavam menos doloridos.
Já estava escurecendo e Marieta
precisa voltar pra sua casa. Concentrar no restante dos serviços e preparar
para uma nova semana. Ao menos a tarde na praça tinha sido agradável. Cheia de
gente, morta e viva. Juntas em suas recordações. Como era bom fazer aquilo de vez
em quando. Olhar o álbum de retratos imaginários. Tinha cheiro, o mais
interessante. Ainda não inventaram álbum com cheiros, ela pensou. Quem sabe
essa ideia daria uma boa invenção? Sorriu com sua grande questão. Tomou o rumo
de casa mais feliz do que quando saiu pra comprar umas coisinhas.
No caminho passou perto do
quintal da vizinha Jurema. Estavam cozinhando feijão com folhas de louro. Poxa,
era o cheiro da sua casa nas segundas-feiras, pensou. Feijão cozido produzia a
lembrança do tempo em que as coisas tinham outro ritmo. Casa com gente, com
café na mesa e depois almoço na hora certa. Quando criança achava tudo muito
chato e cheio de disciplinas. Mas agora era importante lembrar-se daqueles
detalhes. Principalmente porque trazia uma sensação de conforto, segurança.
Sorriu novamente. O domingo acabava.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Depois do fim do mundo
Andando mais um pouco na sala, que era
daquelas de capa de revista de arquitetura, bonita pra chuchu, senti um odor
estranho. Puta merda! Cheiro de enxofre! Quase morri sufocada. Coisa escalafobética.
Fiquei nervosa, mas tentei raciocinar. Bom, se eu não estava na minha casa,
precisava descobrir como fui parar naquele lugar. De repente, uma pontada na
cabeça. Que dor horrível! Levei a mão no alto da cabeça e percebi uma montanha.
Corri para olhar no espelho e vi aquela coisa imensa entre meus cabelos. Uma só
não. Duas coisas, ou melhor, galos. Era o fim!
Já estava no auge da minha
preocupação. Decidida a pegar o telefone e chamar a polícia. Dizer que sofri um
sequestro relâmpago e estava com muito medo de sair sozinha daquela casa. Sei
lá, alguma coisa que trouxesse um ar de responsabilidade àquela situação tão
pouco sem juízo. Mas o pior ainda estava por vir. Avistei no final do corredor
uma porta. Fechada! Sinal que alguém ainda dormia. Ai minha nossa senhora! Era
a hora da revelação. Caminhei sorrateiramente até a porta. Abri bem devagar
tentando fazer barulho quase zero. Pronto! Agora tinha ferrado tudo.
Todo aquele cheiro de enxofre tinha
fundamento. Era o capeta em pessoa que morava ali. A euforia de aproveitar tudo
num mesmo dia em função do fim do mundo tinha dado resultado rápido. Mal havia
acabado a festa e eu tinha parado no inferno! Junto do bicho feio, do cambito, pé-preto, maioral, demo, ai minha santinha
junto do excomungado. Olha lá! Aquilo era um chifre. Não aguentava olhar,
precisava de uma coberta para enfiar debaixo. Que vontade de chorar. Pra que
pecar tanto num dia só? E o mundo, aquela bosta, tinha ou não acabado? Resolvi
encarar o bicho. Parti pra cima dele com unhas e dentes. Vamos enfrentar os
medos. Tá no inferno abraça logo! E fui.
Quase
matei Dona Jandira! Era minha vizinha na cama. Ela tinha aproveitado a onda de
fim do mundo e foi brincar com o marido daquelas fantasias de sex
shopping. A maldita já é maltratada e ainda me coloca uma fantasia de capeta.
Maldição! A bicha tinha conseguido piorar a situação. Quase matei a mulher! Pedi
mil desculpas. Expliquei que tinha acabado de acordar e não estava entendendo
nada. Aí ela me disse que eu cheguei tão bêbada que entrei na porta errada, pois
ficava destrancada. Como eu já estava no quarto feito uma morta estatelada na
cama da filha da Dona Jandira, a pobre senhora resolveu me deixar dormir o
sonho dos anjos. Só se esqueceu de me avisar que acordaria com o capeta!
Tadinha da Dona Jandira. Eu a chamando de demo, enquanto salvou minha vida.
Logo naquele dia que o mundo ia acabar em barranco!
Suspirei
aliviada de tudo. Enfim não tinha feito tanta bobagem (ou não) quanto pensava. Tudo
mais esclarecido. Apenas um pilequinho para comemorar o fim do mundo. Fui
saindo devagarinho, com sorriso amarelo, pedindo licença para a mulher ainda
sonolenta. “Boa tarde pra senhora, Dona Jandira. Ah Feliz Natal adiantado!”
Era
melhor tratar de trabalhar. E bem. Porque outra notícia sobre fim do mundo só
acredito quando os astrônomos confirmarem de verdade. Esse negócio de acreditar
em astrologia em si pode até funcionar, comigo é que foi péssimo.
De-fi-ni-ti-va-men-te!
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Asas da liberdade
Olhou para o outro lado da rua. Uma indecisão lhe tomava o
corpo. Era como se estivesse congelado, preso naquele lado da rua. As pessoas
trombavam em seu braço, em suas pernas. Sentia que incomodava o mundo. Não sou
bem aceita aqui, pensou Nora. Estava difícil acreditar que ela fazia alguma diferença
na vida das pessoas. Todo modo que agia incomodava alguém de certa forma.
Começou a lembrar de cada um de seus amigos e familiares e das opiniões a seu
respeito.
- Nora, você precisa melhorar esse cabelo, minha filha. Tem
que passar uma tinta aí. E se for passar, vê se escolhe o vermelho escuro,
combina mais com você.
- Nora, querida, eu estou te achando triste. Está muito tempo
em casa. Precisa se abrir mais para os amigos. Você anda muito distante.
- Puta merda! Essa é você mesma? Se eu fosse você procurava
um daqueles médicos porretas e fazia uma lipo. Sua barriga está estranha, Nora.
Só estou te falando isso porque sou sua amiga. Alta autoestima é tudo!
- Lindinha, quantas vezes já lhe disse que precisa arrumar um
emprego fixo, com carteira assinada, de preferência na sua área. Tenho um monte
de lugar que posso lhe indicar. Estão precisando de gente. Você também nem se
mexe!
- Nora, eu se fosse você procurava qualquer emprego, o
importante é estar no mercado! Você não pode acordar tão tarde. A vida começa
cedo, menina.
- Eita, tá precisando dá um tapa no visual. Comprar roupas de
marca para impressionar, andar mais em shoppings, ir às baladas. Tá ficando
muito velha com este estilo que anda por aí.
- Já casou Nora? Uai precisa casar menina! Tá passando da
idade de ter filhos. Ou você prefere ficar pra titia. Ficar para solteirona é
muito triste, você vai morrer sozinha, sem ninguém!
- Nora, já sei! Pinta o cabelo de loiro. Os homens gostam é
disso. Mulher com peitos à mostra, bunda empinada e cabelo loiro. É super
sensual!
- Sei não viu. Você precisa é de uma psicóloga, fazer
terapia, essas coisas de gente com problema demais.
- Nora não gasta tanto dinheiro com sua casa. Vai viajar.
Quem sabe no caminho você arruma um namorado. Você tá muito sozinha.
- Nora precisa é ter Deus no coração. Só isso que precisa,
mais nada!
Era como se as pessoas estivessem ali do seu lado falando,
falando e falando. Enquanto isso seus músculos pareciam enrijecer mais. Nora
não conseguia atravessar a rua. O sinal para pedestres já tinha aberto pelo
menos umas cinquenta vezes, desde que começara a tentar contar. Ela não
entendia a reação do seu corpo. Tudo bem que aquelas cobranças diárias
sobre o que devia ou não fazer da sua vida eram comuns. Ela acreditava que havia aceitado
todas. Tinha para si que precisava mesmo mudar.
De repente Nora teve outro pensamento. Para que deveria
mudar? Quando começou a agir como ela acreditava ser o certo, sentiu uma
sensação de liberdade. Tomava decisões sem muita preocupação. Não tinha uma
pedra na garganta, a cabeça quase não doía. Estava feliz daquele jeito, apenas
queria um pouco do carinho dos amigos. O problema era que eles não entendiam o seu
comportamento e por isso às vezes se afastavam.
Mas agora batia uma indecisão. Continuava
ela mesma ou seguia os conselhos e mudava? Cada vez que pensava, mais travava
suas pernas. Quem sabe era melhor parar de pensar. Respirar fundo, tentar
concentrar na luz verde do sinal e vagarosamente se arrastar até o outro lado
da rua. Sua casa estava logo ali na esquina. Seu estômago roncava de fome.
Tentou novamente sair e nada. Tudo pesado ainda. Começou a chorar. As lágrimas
desciam feito cachoeira pelo rosto. Não podia conter os soluços. Até que um
senhor já de meia idade parou impressionado com a situação.
-Minha filha será que posso lhe ajudar de alguma forma? Estou
vendo que está chorando muito.
- Preciso seu moço atravessar a rua e não consigo andar. Só
isso. Minha casa fica do outro lado.
- Então segura no meu braço que te ajudo se for esse o
problema. Vamos devagar, mas conseguimos.
Os dois atravessaram a rua. Já do outro lado Nora sentiu
menos peso. Não entendia o motivo. Mas a angústia tinha acabado. Agradeceu ao
senhor que logo sumiu dobrando a esquina. Subiu para seu apartamento. Já não
sentia fome, apenas uma leveza incomum. Nora agora observava de sua janela
as duas esquinas. Procurava entender como os sentimentos tinham mudado de um
lado para o outro. Era tarde e estava sem sono. Ficou a noite toda olhando. Engraçado como tudo parecia muito simples.
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