- Tem muito tempo que não encontramos! Por que está com a expressão de cansada? Aconteceu alguma coisa?
- Uai, tô? Não... Acordei muito cedo deve ser isso. Tem tempão mesmo. Desde aquele dia fatídico.
- A festa de casamento da Lurdinha. Mas foi tão chique, dançamos pra caramba! Lembra?
- Lembro...
- Então, me diga. Que mal há nisso?
- Pra você nenhum. Mas eu não gostei de me expor daquela maneira. Mostrar pras pessoas que gosto de dançar daquele jeito.
- Dançar é dançar, que bobagem!
- Exibi demais. Não acho que minha imagem ficou legal.
- Conversei com muita gente nas semanas seguintes à festa. Não falaram nada sobre você. Ah, mentira! O Eduardo, o Francis e a Magda disseram que você vive mergulhada em um vidro de formol!
- Viu só! Tanto me expus que notaram em mim! Eu sabia!
- Clara, tem quase um ano que o casamento aconteceu e você ainda se martiriza com esse pensamento? As pessoas já esqueceram. Quer dizer, se é que tinham algo pra esquecer!
- Carmem, você é sempre assim. Coloca panos quentes em tudo. Não quer falar sobre o que aconteceu, a verdade das coisas.
- Qual verdade Clara? Acha que minto, é isso?
- Acredito que enxerga a vida muito cor de rosa.
- E não é bom?
- Talvez seja. Em certos momentos... Mas o tempo todo Carmem! Não gosto do exagero.
- Não vejo dessa forma. Isso que está me pedindo é o mesmo que dizer “pega tudo que já aconteceu na sua vida e martirize os momentos ruins”.
- Nada disso. Estou pedindo “pegue tudo na sua vida e não se esqueça de refletir sobre os momentos ruins, não seja inconseqüente”.
- Prefiro lembrar o vestido da Lurdinha, das taças de espumante que bebi, das músicas que dançamos...
- Ai ai ai! Das músicas! Você também não se esquece dessa hora, de como eu estava exaltada! Viu só?
- Clara, pelo amor de Deus! Não lembro a roupa que você usava! Muito menos se o jeito de dançar estava extravagante!
- Ah, Carmem! Você se lembra sim. Em hora alguma mencionei a palavra extravagante. Falou, então estava no seu subconsciente.
- Melhor paramos a conversa por aqui.
- Também acho.
- Não gostaria de achar que pensa que sou uma lunática.
- Não falei isso! Você gosta de florear as coisas, é diferente.
- Evito é interpretar uma situação de forma tão dura. É verdade que gosto de ser romântica sonhadora. Isso não me impede de ser realista.
- Acho difícil.
- Tudo bem Clara. Mas como ficamos então? Tenho que ir... O que vamos guardar deste encontro?
- Eu vou guardar que estamos vivendo caminhos bem diferentes. E talvez não seremos tão amigas.
- É... Seu ponto de vista. Clarinha, eu vou guardar que nunca vi olhos mais lindos que esses seus. E que falamos sobre a vida.
- Incurável!
- Incuráveis, Clarinha, incuráveis!
Reunir pessoas que gostam de ler. Entrelaçar histórias, um pouco minhas, um tanto de outras pessoas. Formar uma rede de casos e causos. Seja bem-vindo!
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Tempestades
Avisem quando começar. Quando não restar mais folhas nas árvores. O menino parar de jogar bola na rua. A lavadeira recolher os lençóis. Minha avó deitar no quarto escuro. Quando ranger a gaveta das velas.
Às vezes me pergunto. Seria mais confortável saber a previsão das tempestades? Preparar o casaco. Fechar as janelas. Escurecer os quartos. Arranjar as lamparinas. Arredar os móveis. Guardar no bolso o telefone da distribuidora de energia. Cozinhar mais cedo. Antecipar os medos.
Hoje, olhando pela janela e ouvindo música, consegui sentir a vida em seu jogo do contrário. O de fora raramente coincidindo com o de dentro. A luz externa vivendo independente da escuridão interna. Mesmo aborrecido pela indiscrição do dia ensolarado, da falta de educação do céu travestido, fui derrotado. Nada melhor que sair da casa de molusco.
A realidade é que ninguém prepara pra enfrentar os desastres. A gente vive em função de lamber a lata de leite condensado. De viver até a última gota. A tempestade nos racha sangra, às vezes até mata. No entanto... “Passa, por favor, o pão de queijo e a manteiga. Gosto da combinação..”
Às vezes me pergunto. Seria mais confortável saber a previsão das tempestades? Preparar o casaco. Fechar as janelas. Escurecer os quartos. Arranjar as lamparinas. Arredar os móveis. Guardar no bolso o telefone da distribuidora de energia. Cozinhar mais cedo. Antecipar os medos.
Hoje, olhando pela janela e ouvindo música, consegui sentir a vida em seu jogo do contrário. O de fora raramente coincidindo com o de dentro. A luz externa vivendo independente da escuridão interna. Mesmo aborrecido pela indiscrição do dia ensolarado, da falta de educação do céu travestido, fui derrotado. Nada melhor que sair da casa de molusco.
A realidade é que ninguém prepara pra enfrentar os desastres. A gente vive em função de lamber a lata de leite condensado. De viver até a última gota. A tempestade nos racha sangra, às vezes até mata. No entanto... “Passa, por favor, o pão de queijo e a manteiga. Gosto da combinação..”
sábado, 16 de julho de 2011
A viagem entre mundos
Não acredito em viagens que não nos transformem. Ideias a mais ou a menos. Mudar de lugar, exige retirar a lente, limpar e adequá-la ao foco. Nesse exercício, muitas vezes, apontamos para montanhas, rostos e estradas diferentes.
Mais uma vez as escolhas. Lugar comum. Que pede tranquilidade, aceitação interior e reflexão sobre novos pensamentos. Não há escolha perfeita nem melhor do que a outra. Existem escolhas necessárias. Que vão direcionando nossos planos. Um dia também não se adequam mais. Tempo de mudar de plano.
Podemos não nos dar conta da infinidade de planos que fazemos. Movidos por sonhos, desejos, ideias e crenças. Segundo especialistas sobre negócios, para ser plano é preciso ter meta, objetivo, tempo, começo meio e fim. No meu conceito é preciso primeiro ter coragem.
Não somos simples. Somos um grande negócio. Cada pessoa transforma a vida da outra de maneira rápida. É numa parada para socorrer a mulher grávida, no carinho na cabeça da criança, no olhar de indignação, no som da palavra “faremos”, e em muitos outros quadros. Como nos filmes, a distância em segundos entre um quadro e outro, o famoso frame, é também cada vez mais reduzido na nossa história. A nossa capacidade de analisar compete em desvantagem com a agilidade em que os quadros acontecem. No entanto, é preciso viajar entre mundos.
Mesmo corrido, é possível internalizar o pensamento diferente aqui outro acolá. Acreditar em uma unica ideia costuma engessar planos. Provável o sujeito nascer e morrer agarrado à ilusão da segurança. Nenhum mundo é só prazer. Cada passo, uma possibilidade de tombo. Cada tombo, outro passo. Quem disse que não teríamos dias intensos e escolhas complicadas?
quinta-feira, 24 de março de 2011
Dos amores
Acho que matei as bruxas.
Quando era pequena, lembro do suor pingando no calor das cobertas. Rosto tapado, nem um buraquinho. Não podia deixar brecha para a perversa entrar no emaranhado de cabelos e panos.
Depois de anos decidi não acreditar mais nela. O medo, a falta de coragem de acender a luz, as visões da porta acabaram. Mas também desapareceu a conversa com os anjos e os possíveis espíritos. O outro lado sumiu. Vi explodir o sentimento de segurança em minhas escolhas. A coragem avançava. Bons dias foram aqueles...
Há momentos em que sinto raiva daquela decisão. Pra que espantar as bruxas? O mistério, as animações, a cortina das fadas, dos monstros me traziam certo conforto. A dor não caminhava tão dura. Havia sempre um pouco da lacuna preenchida por caldos mágicos.
Veio a dor dos amores. Aquela que enche os espaços de saudade. No lugar das fadas pousaram as explicações lúcidas. Os porquês das decisões. A lacuna traz agora um ar de maturidade ocupada pela razão dos 30 e poucos.
Ontem fechei todas as frestas da cortina. Apaguei a luz e saltei na cama simulando medo. Entrei no meu casulo. Cinco minutos e abri tudo. Esbaforida pela falta de ar debaixo das cobertas. Já rompi com isso. Ri de mim mesma.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
A alma e a casa
“Amar é mudar a alma de casa”... Quando Mário Quintana disse isso, talvez pensasse no quanto o amor, o enamorar-se provoca mudanças, aguçando a percepção da vida sob outro prisma... Pode ser...
Olhei bem pra frase e pensei “como estes escritores são porretas”! Não estava enamorada nem apaixonada, mas vivendo uma situação que era preciso mudar a alma de casa. Era uma leitura que dizia que amar era alterar um modelo cômodo e agradável aos amados. Agir diferente é a melhor demonstração de amor que podemos dar. A casa da alma não pode ser sempre a mesma: a cozinha arrumada, roupa lavada, crianças limpinhas, pão e o café na mão, fruta mastigada na boca feito um sabiá alimentando os filhotes. Mas por quê?
Bem... acredito que modelos tem ciclos de vida. Num determinado tempo eles não podem ser mais habitado por aquela alma... Às vezes é necessário reinventá-lo, outras remodelá-lo. É... Amar exige sacrifícios, pois a vida seria bem mais confortável se os ninhos fossem para sempre, hein? Mas aí é que mora o perigo da palavra cuidar! Confundimos desde cedo, tornando-a sinônimo de escravizar. Escravizamos pais, maridos, mulheres, filhos, irmãos num jogo perigoso e catastrófico. Dedicar exclusivamente, viver em função, respirar o ar que respira: são as frases popularmente conhecidas quando a palavra assume este sentido.
E quando mudamos nossa alma de casa? Ah... É bem certo ouvir “você não cuida mais de mim”, “não me ama mais”, “egoísta”. Serão as palavras mais bonitinhas... Por isso mesmo é que não devemos fraquejar! Assim, pensar constantemente se nossas almas estão na casa certa, se o tempo já não desgastou as paredes e será preciso um “lugar” diferente, é questão de urgência. E que a frase - amar é mudar a alma de casa – passe a ser cada dia mais óbvia e necessária!
Escrevi esse texto em 09/01/09 ...continua presente em minhas reflexões...
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