terça-feira, 8 de junho de 2010

Na Sala

- Boa tarde, senhora. A razão da reunião é porque seu filho não consegue acompanhar a escola. Sugiro que tente adaptá-lo a outro sistema de ensino.
- Sugiro que vocês me expliquem qual é o real sistema desta escola.
- Bem, como a senhora pode ver, a cada ano, cresce o número de alunos que passam nas primeiras colocações do vestibular. Temos pessoas brilhantes aqui, ou seja, que conseguem se destacar porque nosso sistema é excelente.
- Então, aqueles que não seguem o padrão são ruins demais para a escola, alunos medianos, sem brilho para o sistema?
- Não senhora, eles devem ser bons sim, mas não se adaptaram ao nosso ritmo!
- É muito engraçado... Sempre achei que o desafio era a escola despertar o interesse do aluno para que ele sentisse feliz, à vontade para aprender. Mas não, ao contrário vocês limitam qualquer que seja o desejo desses meninos. Na verdade, a necessidade vem da direção: aumentar as estrelas que passam no vestibular.
- Falando desse jeito a senhora nos compara a um quartel ou a qualquer ranço desse gênero.
- Que isso! Não resuma tudo em ditadura! Falar dessa maneira torna tudo simplista!
- A questão é delicada, entendo, mas precisamos ver esse caso o quanto antes.
- É verdade, o que é um molde? Belo e estúpido achismo! Quase uma crença! Métodos e modelos servem pra ajudar. Quando a escola se restringe a seguir, acaba qualquer tesão, tanto dos alunos, quanto professores.
- Acha que podemos tirar as aulas da cachola?
- Podem ouvir seus alunos, prestar atenção nas angústias e apelos.
- Não somos psicólogos, minha senhora, somos professores.
- Entendo as dificuldades, vocês não tem uma série de obrigações, são mesmo da família. Bom, diante desse cenário, o jeito é procurar outra escola.
- Vai ser melhor pra ele.
- Olha, a resposta ainda não sei. Está difícil dizer o que é melhor pra ele, porque o ensino tem se transformado em aglomerados produtivos. Cada um com seus métodos, pessoas, e padrões. Fico me perguntando, será que atendem ao mínimo dos anseios humanos?
- A gente não pode mudar toda hora, o modelo é necessário!
- Sim, ele tem seu lugar... Mas fique com uma pergunta: o que seriam das invenções sem criatividade, riscos e extrapolações de modelos?
- Senhora, aguardamos o pedido de transferência do seu filho.
- Sem dúvida o farei.

3 comentários:

  1. Ei Má, adorei todos os textos, mas esse em especial. A dura realidade da vida é isso mesmo, temos que tentar constantemente nos enquadrar dentro de padrões pré-definidos pela sociedade e se não temos esse perfil, como esse pobre garoto, somos discriminados e muitas vezes ridicularizados. E aí as pessoas começam a se questionar porque não são tão boas qto "as outras"! E acabam esquecando que cada um é especial pelo diferencial e não pela igualdade. Uma amiga me mandou um trecho de um livro que achei muito interessante, vou postar aqui!
    “Há os que não reconhecem seus atributos. Os outros é que tem valor. Os outros é que sabem e agem corretamente. A norma é segui-los. É agir como eles agem. É copiá-los. Estéril mimetismo. Arremedo existencial. É abandonar a própria identidade. É recusa a originalizar algo de próprio, como diria Ricouer. Tal atitude é catastrófica. Arruína o destino humano. Esquece que toda pessoa pode criar algo de novo, e colocar no mundo gesto original por modesto que seja. Todo ser humano deveria descobrir, amar e cultivar seu valor pessoal, para o crescimento de todos. A diversidade de valores pessoais e de recursos sociais, expressa a imensurável potência que a humanidade tem para escolher rumos e destinar-se historicamente. Se não fossemos diferentes, o tédio sufocaria a história, e a rotina infecundaria os grãos da criatividade. É pela originalidade, plantada em cada existência humana, que o mundo deixa de ser monotonia para ser politonia. E, com tons diferenciados, o universo poderá ensaiar nova destinação”. (ARDUINI, Juvenal. Destinação antropológica. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989. p. 66-67).
    Beijos,
    Maya

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  2. AS VEZES EU PENSO QUE SERIA PREFERIVEL O ENZO ESTAR EM UMA ESCOLA DE CIRCO DO QUE EM UMA ESCOLA CONVENCIONAL...ELAS NÃO ABSORVEM NEM ENTENDEM CRIANÇAS QUE NÃO SE ENCAIXAM NOS PADRÔES...MAS AFINAL, O QUE É NORMAL?

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  3. Adorei os comentários, o texto e as indagações! Isso aí, meninas, o que é normal? Estamos caminhando bem, pois o questionamento é a melhor forma de apresentarmos o quanto temos de diferente e de original.

    beijocas da Maricota!

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