segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Universo Paralelo


Parte 1
A missionária

Saiu de casa cedo. Como sempre, antes de ir, deixava o café pronto para os filhos, o pão novinho e as xícaras de cada um sobre a mesa. Eram três. Não tinha marido. Ficara viúva muito nova e decidiu não se casar mais. Sentia falta de um companheiro, mas alegava que isso tomaria muito do seu tempo.

- Tenho tanta coisa pra fazer. Não posso pensar em me relacionar com alguém. Só vou dedicar aos meus filhos. Justificava-se para os amigos que a importunavam sempre com a intenção de apresenta-la a mais um pretendente.

A rotina de Elza era sempre a mesma. Café, acordar os filhos, faxina na casa da Dona Mercês, vendinha do bairro, preparar a janta que daria para o almoço do dia seguinte. Sair nem pensar. Conversar com as vizinhas muito menos.

Por anos viveu assim. Sozinha, sem muitos amigos. Só mesmo a Josefa e o Luiz que continuavam insistindo em visita-la. Mas se dependesse da boa vontade dela, não veria mais ninguém.

Os filhos já estavam grandes e ela percebia que a cada dia mais perdia o fio da comunicação com eles. A convivência se resumia em quase meia dúzia de palavras por dia. Sentia um vazio tremendo. Uma falta de sentido em sua vida. Tudo era uma mistura de desânimo com obrigações rotineiras. Tentava se apegar às ocupações por conta dos filhos e do trabalho na casa da Dona Mercês, que já estava bem velhinha e dependia dos seus cuidados.

Pois bem. Um dia os filhos anunciaram que iam moram em Salvador com o pai. Tinham uma boa proposta de emprego e tudo estava encaminhado por lá. O pai nunca dera pensão e seria uma grande oportunidade de ajudar. Além de tentarem uma reaproximação. Elza quase morreu de tanto chorar. As visitas de Josefa e Luiz passaram a ser quase que diárias. Não entendia a escolha dos filhos. Ainda mais morar com o pai, que nunca fora lá grandes coisas. Ela que tanto dedicou a vida por eles. Era injusto demais.

Para piorar a situação que não estava nem um pouco boa, Dona Mercês morreu. Seu mundo definitivamente não tinha mais valor. Ela perdera tudo de uma vez só. Tudo que fazia algum sentido ou alguma ocupação. Muito complicado viver com o abandono e a morte. E agora o que seria sua vida? Quem sabe seria bom se preocupar com outras coisas? Ver outras ocupações? Reinventar a vida? Os amigos a questionavam. Mas Elza não respondia a qualquer estímulo.

Certo dia, já bem tarde, Elza passava pela pracinha de seu bairro. Viu uma luzinha acessa e muitas pessoas cantando. Sentiu certo conforto e resolveu aproximar. As pessoas fechavam os olhos e colocavam cuspes e orações pra fora, embalados numa música de fundo. Era a música que ouvira de mais longe. Ficou curiosa. Queria entender como funcionava aquele transe que seus olhos viam. Como as pessoas podiam fazer aquilo? Quem estava por trás disso? Elas vestiam o mesmo tipo de roupa. Uniformizadas e falando de um mesmo lugar. De outro mundo que não era o seu. Parecia ser melhor, bem melhor. Decidiu ficar. Ficou pra sempre.

- Bom dia meu irmãos. Eu sou a missionária Elza. Estou aqui para dar o meu testemunho. Antes eu era uma pessoa perdida, que não via sentido em nada. Hoje meu mundo tem cores de rosa, verde, amarelo. Antes tudo era escuridão e tristeza. Hoje moro neste mundo, onde a oração é minha principal arma e a ajuda pra tudo vem de cima e de mais ninguém. Aqui não existe guerra, fome, traição, pobreza, depressão, luxúria, pornografia. Por isso temos de contribuir para que este mundo cresça. Este mundo me salvou. E pode salvar você também. Glória!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Sacada de mestre




A morte em si é ingênua. Na verdade o que nos faz sofrer são os andamentos de tudo.

Lá vem ela de novo. A falta do contato físico. O processo de aceitar que ela levou alguém. 

Não é má nem bruxa. Talvez seja aquela que equilibra, transforma, organiza.

A morte tem o dom de deixar algumas relações insignificantes. Quem nunca abraçou o inimigo depois de uma grande perda? Tudo é mesmo relativo. Não é hipocrisia. O ódio só é muito enquanto não há grandes perdas. É comum as coisas ficarem sem importância.

A morte organiza a atenção. Com o vazio ela mostra o quanto precisamos dos outros. O quanto cabe na nossa sala de estar, nos espaços em branco. E a gente encontra um, outro, mais outro. A vida tem nova redistribuição.

A morte não deixa buracos. Ela coloca obturações. Ninguém é mais o mesmo. Nenhuma ferida é mais a mesma. E como todo reparo é preciso cuidado.  

Também tem a hora de deixar a morte de lado. Cansa pensar nela. É bom falar das pessoas que se foram com mais alegria. E é lógico ter tempo para as piadas, situações engraçadas.

É a mais pura verdade dizer que a morte sempre vai representar o início. Não que eu a venere. Agora parece absurdo dizer isso, mas a morte carrega consigo uma sacada de mestre. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012


Dos armários

Era final de expediente. O calor incomodava Ana apesar das parafernálias de ar condicionado, persianas inteligentes. Seria outro dia comum, não fosse sua necessidade repentina de abrir o armário. Ela não viu função para aquela bobagem de abrir um armário sem motivo algum. Quando o abria era para organizar os livros de um lado, as revistas de outro, os filmes daquele. Gostava de verificar a utilidade dos materiais, como se tornariam projetos ou novas ideias. Arquivo era tratado como coisa viva. Estava ali pra ser folheado. Pra indicar como proceder ou simplesmente não fazer. Tudo tinha um porquê. Mas agora não existia um motivo para levantar e puxar suas portas. Era hora de deixar o armário.

Daquele dia em diante aquele objeto quadrado tinha se transformado em armário. Peça de escritório. Quem olharia pra ele? Bom, as pessoas que gostam de armário, ela pensou. Ou quem percebesse que estava sujo, talvez. E as coisas, o monte de trem, a bagunça? É verdade. Estavam todos na posição da última mexida. Mas agora sem alma. Era mesmo gente que faltaria. Ana entendeu que mesmo que outras pessoas lhe dessem “vida”, nunca mais os objetos teriam o mesmo sentido.

E ela pensou que muitos armários viviam constantemente sem alma. Era desesperador. Pegou um dos trabalhos empilhados. Lembrou-se das horas empenhadas, stress, dor de barriga, náuseas, insônias e por fim o mérito. Teve a sensação que o papel esquentava na sua mão. Como se tivesse sangue circulando rapidamente nas páginas. Voltou com eles para o armário ajeitando-os como filhote no ninho. Como ficariam os projetos famintos? Quem os alimentaria? Ela dava comida, mesmo quando a dificuldade era grande. E agora?

Lembrou-se de uma velha amiga que lhe dizia sempre: “Ninguém é insubstituível”. A recordação lhe trouxe certo conforto. Em todo tempo é tempo de outras pessoas, de novos olhares, de outras dedicações. Fechou as portas daquele armário e com carinho deixou suas chaves à vista. Quem sabe a novidade seria mais rápida do ela estava imaginando...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pra não dizer que não falei de como me sinto



É hora de agir. Sabe que tem uma grande decisão pela frente. A barriga dói, ansiedade aumenta. Tenta ficar firme porque a escolha depende de você. O que o faz pensar que é necessário ficar calmo? A razão? Respirar lentamente e centrar na questão. Avaliar as possibilidades do sim e do não. Medo? Mais que comum. Liga pra alguém. Um amigo a quem confia seus segredos. O pai a lhe dar conselhos maduros. Alguém que viveu bons pedaços. Quer falar com sua avó. A experiência dela lhe traz a segurança de que certas decisões são necessárias. Escuta música. Liga para outro amigo. Talvez chore um pouco. É certo que a qualquer hora o tabuleiro vai se alterar. Come um doce. Dois. Três. Um pacote deles.


Senta num canto qualquer. Apega-se aos seus critérios de escolha. Eles passam pelas experiências concretas, pela moral e pelo senso humanista. Eles pautam suas decisões. Não há outros intermediários. Eles nunca existiram dentro de você. Um dia você tentou por pressões externas, comodidade, aceitação... Talvez. Mas não crê que alguém que nunca existiu pra você possa te ajudar. Não existe. Sem link e vias. Em determinada época você aceitou colarem em suas querências da mesma forma em que o homem de lata aceitou a figura do coração. Você colou e tentou acreditar. Não aconteceu o espaço. É muita força que se tem que fazer quando algo é figura sem sentido. O homem de lata acreditou no coração. Eu não acreditei no que tentei colar em mim.

A xícara de café bem quente sem açúcar. Gole e pensamento. Pausa. Outro gole já frio. Olha a chuva. Esquece-se da decisão. Enxerga que você é infinitamente pequeno diante de tantos problemas no universo. Seu problema fica menor. Bem menor. Você é um pontinho quase apagado. A barriga para de doer. Cessa a chuva e o sol brilha. Tudo queimando novamente. Nada muda porque você muda. Não é uma catástrofe. A ansiedade some. A fome aumenta. Tudo vivo dentro de você. Anima-se. Decide. Liga pra alguém. Quer comemorar a escolha.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Felizes reuniões e um doce 2012 !

Não gosto da palavra balanço. Obrigação de medir os esforços pessoais. Jogar pra lá o que foi bom e pra cá o ruim. Isso me angustia bastante. Respostas não são absolutas. Bem e mal são relativos.

Gosto especialmente da palavra amadurecer. Ela não te exige, a cada ano, fazer análise da cadeia produtiva do amadurecimento. Ao contrário, a palavra sugere juntar tudo numa sopa só (nada primordial). A-MA-DU-RE-CER. Encher-se de experiência. Admiro as palavras que ocupam muitos espaços. Não pressionam. Nem dividem. Continuam.

Oportunamente, desejo que a palavra amadurecer faça parte de nossas ceias natalinas. Que além de transformar as frutas em comidas mais doces, também produzam, em 2012, sociedades mais solidárias e justas.