terça-feira, 21 de agosto de 2012

Sacada de mestre




A morte em si é ingênua. Na verdade o que nos faz sofrer são os andamentos de tudo.

Lá vem ela de novo. A falta do contato físico. O processo de aceitar que ela levou alguém. 

Não é má nem bruxa. Talvez seja aquela que equilibra, transforma, organiza.

A morte tem o dom de deixar algumas relações insignificantes. Quem nunca abraçou o inimigo depois de uma grande perda? Tudo é mesmo relativo. Não é hipocrisia. O ódio só é muito enquanto não há grandes perdas. É comum as coisas ficarem sem importância.

A morte organiza a atenção. Com o vazio ela mostra o quanto precisamos dos outros. O quanto cabe na nossa sala de estar, nos espaços em branco. E a gente encontra um, outro, mais outro. A vida tem nova redistribuição.

A morte não deixa buracos. Ela coloca obturações. Ninguém é mais o mesmo. Nenhuma ferida é mais a mesma. E como todo reparo é preciso cuidado.  

Também tem a hora de deixar a morte de lado. Cansa pensar nela. É bom falar das pessoas que se foram com mais alegria. E é lógico ter tempo para as piadas, situações engraçadas.

É a mais pura verdade dizer que a morte sempre vai representar o início. Não que eu a venere. Agora parece absurdo dizer isso, mas a morte carrega consigo uma sacada de mestre. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012


Dos armários

Era final de expediente. O calor incomodava Ana apesar das parafernálias de ar condicionado, persianas inteligentes. Seria outro dia comum, não fosse sua necessidade repentina de abrir o armário. Ela não viu função para aquela bobagem de abrir um armário sem motivo algum. Quando o abria era para organizar os livros de um lado, as revistas de outro, os filmes daquele. Gostava de verificar a utilidade dos materiais, como se tornariam projetos ou novas ideias. Arquivo era tratado como coisa viva. Estava ali pra ser folheado. Pra indicar como proceder ou simplesmente não fazer. Tudo tinha um porquê. Mas agora não existia um motivo para levantar e puxar suas portas. Era hora de deixar o armário.

Daquele dia em diante aquele objeto quadrado tinha se transformado em armário. Peça de escritório. Quem olharia pra ele? Bom, as pessoas que gostam de armário, ela pensou. Ou quem percebesse que estava sujo, talvez. E as coisas, o monte de trem, a bagunça? É verdade. Estavam todos na posição da última mexida. Mas agora sem alma. Era mesmo gente que faltaria. Ana entendeu que mesmo que outras pessoas lhe dessem “vida”, nunca mais os objetos teriam o mesmo sentido.

E ela pensou que muitos armários viviam constantemente sem alma. Era desesperador. Pegou um dos trabalhos empilhados. Lembrou-se das horas empenhadas, stress, dor de barriga, náuseas, insônias e por fim o mérito. Teve a sensação que o papel esquentava na sua mão. Como se tivesse sangue circulando rapidamente nas páginas. Voltou com eles para o armário ajeitando-os como filhote no ninho. Como ficariam os projetos famintos? Quem os alimentaria? Ela dava comida, mesmo quando a dificuldade era grande. E agora?

Lembrou-se de uma velha amiga que lhe dizia sempre: “Ninguém é insubstituível”. A recordação lhe trouxe certo conforto. Em todo tempo é tempo de outras pessoas, de novos olhares, de outras dedicações. Fechou as portas daquele armário e com carinho deixou suas chaves à vista. Quem sabe a novidade seria mais rápida do ela estava imaginando...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pra não dizer que não falei de como me sinto



É hora de agir. Sabe que tem uma grande decisão pela frente. A barriga dói, ansiedade aumenta. Tenta ficar firme porque a escolha depende de você. O que o faz pensar que é necessário ficar calmo? A razão? Respirar lentamente e centrar na questão. Avaliar as possibilidades do sim e do não. Medo? Mais que comum. Liga pra alguém. Um amigo a quem confia seus segredos. O pai a lhe dar conselhos maduros. Alguém que viveu bons pedaços. Quer falar com sua avó. A experiência dela lhe traz a segurança de que certas decisões são necessárias. Escuta música. Liga para outro amigo. Talvez chore um pouco. É certo que a qualquer hora o tabuleiro vai se alterar. Come um doce. Dois. Três. Um pacote deles.


Senta num canto qualquer. Apega-se aos seus critérios de escolha. Eles passam pelas experiências concretas, pela moral e pelo senso humanista. Eles pautam suas decisões. Não há outros intermediários. Eles nunca existiram dentro de você. Um dia você tentou por pressões externas, comodidade, aceitação... Talvez. Mas não crê que alguém que nunca existiu pra você possa te ajudar. Não existe. Sem link e vias. Em determinada época você aceitou colarem em suas querências da mesma forma em que o homem de lata aceitou a figura do coração. Você colou e tentou acreditar. Não aconteceu o espaço. É muita força que se tem que fazer quando algo é figura sem sentido. O homem de lata acreditou no coração. Eu não acreditei no que tentei colar em mim.

A xícara de café bem quente sem açúcar. Gole e pensamento. Pausa. Outro gole já frio. Olha a chuva. Esquece-se da decisão. Enxerga que você é infinitamente pequeno diante de tantos problemas no universo. Seu problema fica menor. Bem menor. Você é um pontinho quase apagado. A barriga para de doer. Cessa a chuva e o sol brilha. Tudo queimando novamente. Nada muda porque você muda. Não é uma catástrofe. A ansiedade some. A fome aumenta. Tudo vivo dentro de você. Anima-se. Decide. Liga pra alguém. Quer comemorar a escolha.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Felizes reuniões e um doce 2012 !

Não gosto da palavra balanço. Obrigação de medir os esforços pessoais. Jogar pra lá o que foi bom e pra cá o ruim. Isso me angustia bastante. Respostas não são absolutas. Bem e mal são relativos.

Gosto especialmente da palavra amadurecer. Ela não te exige, a cada ano, fazer análise da cadeia produtiva do amadurecimento. Ao contrário, a palavra sugere juntar tudo numa sopa só (nada primordial). A-MA-DU-RE-CER. Encher-se de experiência. Admiro as palavras que ocupam muitos espaços. Não pressionam. Nem dividem. Continuam.

Oportunamente, desejo que a palavra amadurecer faça parte de nossas ceias natalinas. Que além de transformar as frutas em comidas mais doces, também produzam, em 2012, sociedades mais solidárias e justas.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Aos visitantes

Levantei bem cedo. O tempo fechado me fez mudar o cardápio. Pensei no charuto de folha de uva e de repolho, preparado em um fundo bem caprichado de alho, carne, tomates e cebolas. Arroz com macarrãozinho cabelo de anjo dourado na manteiga. Para a entrada pasta de grão de bico com pão árabe e muito azeite e pimenta síria. Azeitonas pretas suculentas, quibe cru com bastante hortelã ao lado. Como tudo no Brasil, sincretismo. Logo para a sobremesa mousse de limão com raspinhas da casca por cima. A casa com flores do quintal, de preferência as vermelhas. Tudo cheirando à arrumação e perfumado pelo vapor das comidas. A família chegou com bastante falação, sacolas, beijos. Vovó com seus embrulhos de alumínio: pães para o café, amor em pedaço e um grande abraço. Mesa, discussões, risos e histórias. No final da tarde, meus rubores causados pela bebida. Renovação da mesa. Conversa com café “mais um monte de trem que o povo trouxe”. Hora de despedir, abrir as portas da saída. Aceno para os convidados. Ela acena dentro de mim e diz que o almoço estava do seu jeito. Sem tristeza. Saudade, mas nada grave. Bato o portão. “Se não chover, ano que vem, vou fazer churrasco com salpicão”...


Não sei o que vem depois da morte. Por enquanto não há conexão suficiente para acreditar na continuidade. Morrer é perder. Sigo sem adornos. Mas mudar o foco da morte nos faz deliciar-se de vida. Nada como encher a casa de gente que foi e gente que está. As lembranças só se completam quando estão todos juntos, na mesma história, sem pausa porque se falou de alguém que morreu. Tentar uma leitura pessoal do Dia dos Mortos no México? Quem sabe? É sem dúvida uma possibilidade de refletir sobre o poder da mente. Usar a imaginação, orientada ou não por crenças. Com todo respeito, gostei de escrever o 2 de novembro, baseado no culto em clima de festa. Celebração de origem indígena, o Dia dos Mortos para os mexicanos é celebrado com uma grande recepção aos parentes mortos. Um evento com comida, bolos, caveirinhas de açúcar, festa, música e doces preferidos dos mortos.


Segundo historiadores, as origens da celebração no México são anteriores à chegada dos espanhóis - Há relatos que os astecas, maias, purépechas, náuatles e totonacas praticavam este culto. Os rituais que celebram a vida dos ancestrais se realizavam nestas civilizações pelo menos há três mil anos. Na era pré-hispânica era comum a prática de conservar os crânios como troféus, e mostrá-los durante os rituais que celebravam a morte e o renascimento. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_dos_Mortos)
Diferente da religião católica, a morte no pensamento dos antigos mexicanos não trazia a conotação de inferno e paraíso, servindo para castigar ou premiar pelo que o morto fez em vida. Ao contrário, o tipo de morte é que determina o caminho da alma. O Mictlan, por exemplo, era destinado a quem morria de morte natural. Para se chegar lá, a alma passaria por um caminho tortuoso e difícil, povoando diferentes lugares durante quatro anos.Interessante era o olhar para as crianças mortas. Num lugar especial, chamado Chichihuacuauhco, elas contavam com árvores em que ramos pingavam leite. Era uma espécie de criatório, pois as crianças de lá voltariam à Terra, quando sua raça fosse destruída.


O Dia dos mortos também é comemorado, semelhantemente ao evento mexicano, no Texas e Arizona, onde há muitas comunidades mexicanas. Em outros estados, a interação entre as tradições mexicanas e a cultura estadunidense está resultando em celebrações estendidas em manifestos artísticos e políticos.


Flores, orações e velas são levadas paras as sepulturas dos mortos em vários países da Europa. Em Portugal e Espanha, oferendas são feitas neste dia. Na Espanha, a peça Don Juan Tenorio é tradicionalmente apresentada.


No Brasil, o feriado católico convida para uma festa em intenção aos mortos. Um tanto melancólica, mesmo que a intenção seja positiva, as pessoas vão aos cemitérios e igrejas, com flores, velas e orações.


Manifestações em comemoração aos mortos chegam ao Haiti, misturando elementos católicos com tradições vudu. Tambores e músicas são tocados por toda a noite em celebrações pelos cemitérios para acordar Baron Samedi, o senhor dos mortos, e seu descendente, o Gede. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_dos_Mortos)


Em 7 de novembro de 2003, a UNESCO distinguiu a festividade indígena do Dia dos Mortos como Obra Mestra do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade. O documento se destaca: "Esse encontro anual entre as pessoas que celebram e seus antepassados, desempenha uma função social que recorda o lugar do indivíduo no seio do grupo e contribui na afirmação da identidade..." (http://www.unesco.org/new/en/culture)


Enfim, a morte é o cessar definitivo da vida. A forma como é percebida por cada um talvez seja a chave para repensarmos a vida, o trato com nossos semelhantes e a maneira de relacionar com o mundo. Um dia escrevi: “Vida e Morte. Paradoxos que se completam e brincam de esconder enquanto insistimos numa separação. Quem sabe assumi-los como complementos resultará em valorizar cada segundo de vida? E que viver vai bem além de crescer, amar e multiplicar. Isso significaria humanizar a morte e assustar-se com a vida? Seria fabuloso sacudirmos com as surpresas da vida, porque a morte se tornaria tão humana e esperada, que nela mais nada residiria, sem espantos, sem partidas”.